sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
FÉ EM DEUS E LEITURA DA BÍBLIA
FÉ EM DEUS E LEITURA DA BÍBLIA
As comunidades católicas da Diocese de Lisboa têm em curso, durante 2018, uma iniciativa pastoral de grande alcance esculpida no lema seguinte: “ Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”. Integra vários projectos : leitura contínua da Bíblia, ler e rezar a Bíblia, leitura da Bíblia na catequese, Grupos de Jesus... E tudo isto apoiado no trabalho aturado e muito competente de tradução dos textos originais e de divulgação dessas traduções ao longo dos últimos trinta anos (Bíblia dos Capuchinhos e Bíblia Ecuménica).
Duas sugestões que podem eventualmente contribuir para o maior sucesso desta iniciativa pastoral.
A primeira tem a ver com a necessidade de interpretar a Bíblia a partir das duas dimensões essenciais da Boa Nova de Jesus Cristo.
A primeira dimensão é sobre Deus. Deus é só amor, amor infinito, Pai misericordioso que perdoa sempre e não castiga,” Abba” que quer dizer “Papá”. A outra dimensão, que decorre da primeira, é o amor dos outros, amor universal, amor ilimitado, amor dos inimigos e amor que partilha os bens.
O Deus castigador, ciumento, justiceiro ( a justiça é só o limiar mínimo do amor), violento e discriminador que surge em não poucos textos do Antigo Testamento não se identifica seguramente com o Deus de Jesus Cristo, o Deus que ele revelou.
Na leitura e oração públicas (liturgia) seria bem melhor que fossem suprimidas essas passagens como, de resto, faz o Evangelista Lucas quando, ao citar o Profeta Isaías suprime “ o dia da vingança da parte do nosso Deus”. Ver Lc 4,.18-19.
Quanto ao amor aos outros, a expressão “amor ao próximo” provem do judaísmo e Cristo rejeitou-a ( Parábola do bom samaritano). Apesar disso generalizou~se nos círculos cristãos. Restringe efectivamente os destinatários do amor cristão aos que estão próximos de quem ama, mesmo quando se interpreta como estabelecendo prioridades. O verdadeiro discípulo de Cristo ama igualmente os que não conhece, os inimigos, os estrangeiros, todos, os que estão próximos e os que estão longe, qualquer que seja o tipo e a dimensão da distância.
A fórmula “ Ama os outros como a ti mesmo” estabelece uma medida e o amor cristão, à partida, é sem medida. A chamada “lei de talião”, ama os outros tal como gostarias que os outros te amassem a ti, limita o amor cristão que, segundo Jesus, não tem limites. “ Amai -vos uns aos outros como eu vos amei”, isto é, com um amor humanamento divino.
No meu tempo de criança, isto é, há setenta anos e na minha aldeia do Minho, frequentei a então chamada “doutrina” que consistia na apresentação/explicação e na aprendizagem/memorização dos Mandamentos da Lei de Deus, dos Sacramentos, do Credo , das Obras de misericórdia...As crianças dos meios mais ilustrados tinham acesso à “Bíblia das Escolas”, um resumo das melhores histórias e mensagens da Sagrada Escritura.
Veio depois a fase da “catequese”, centrada na história da salvação e na liturgia, esta encarada como concretização da salvação. Então já era catequista e quando questionava os meus catequizandos e eles não sabiam responder surgia quase sempre um ou dois que , para salvar a honra da turma, respondia invariavelmente: Adão e Eva ( o início da história da salvação) ou Missa ( o coração da liturgia).
É preciso dar mais um passo em frente. Salvamo-nos, isto é, somos felizes aqui e agora e para sempre, através do amor e não só nem principalmente pela doutrina ou pelos ritos, por mais sagrados que sejam, ou pela oração individual ou colectiva.
Os melhores catecismos e catequistas seguem o plano do ano litúrgico mas geralmente interpretam as principais festas com uma perspectiva quase exclusivamente doutrinária ou cultual. Ora qualquer celebração da igreja constitui uma âncora para o amor concreto de Deus e dos irmãos.
No início do ano litúrgico é o advento/natal que celebra o amor criador e salvador de Deus, Pai amoroso de quem somos filhos; segue a Páscoa que festeja o amor libertador de todos os seus filhos; vem, depois , o Pentecostes que difunde o fogo do amor fraterno que renova a face da terra. Também aqui, o importante mesmo é encaminhar as crianças para o encontro com Jesus Cristo e com a sua mensagem fundamental: fé/amor a Deus e fé/amor aos irmãos.
Artur Lemos
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