sexta-feira, 22 de dezembro de 2017


O PROJECTO HUMANIZADOR DE JESUS E OS “GRUPOS DE JESUS”

Face às mudanças radicais que estão a ocorrer no mundo em que vivemos sentimo-nos, muitas vezes, sozinhos e perdidos e, então, cada qual procura fazer o seu caminho de felicidade, não raramente sem os outros ou mesmo à custa dos outros, multiplicando sofrimentos próprios e alheios e hipotecando o destino das gerações vindouras.

Um de nós, o Papa Francisco,sugere o retorno ao projecto humanizador do Profeta Jesus de Nazaré, que há dois mil anos o pôs em marcha num momente de crise por que passava a humilde região onde tinha nascido (Galileia, Palestina)

Como um dos responsáveis actuais pelo movimento desencadeado por Jesus e que veio a chamar-se “religião cristã”, o Papa Francisco reconhece que, ao longo destes dois mil anos, o cristianismo contribuiu para a felicidade de muitos e para a humanização da sociedade. Mas reconhece também que o cristianismo gerou muita exploração, muita opressão e que revestiu Jesus de vestes que o desfiguraram a ele e ao seu projecto.

Daí o seu convite aos cristãos e aos seres humanos do mundo inteiro para revisitarem o projecto humanizador e libertador de Jesus porque ele pode trazer aos indivíduos e humanidade mais esperança, mais felicidade, mais paz, mais inclusão e mais comunhão com a mãe terra.

Os “grupos de Jesus`” são uma iniciativa, entre outras, que responde ao convite do Papa Francisco e que tem dois objectivos: descobrir (redescobrir) o projecto de Jesus e aprender a seguir os seus passos na implementação desse projecto humanizador a que ele, no seu tempo, chamou “Reino de Deus”

Nas reuniões dos grupos, através da leitura e do comentário aos quatro Evangelhos procura conhecer-se melhor Jesus e o seu projecto de felicidade e, através da imitação de Jesus na condução da própria vida individual e colectiva, procura aprender-se a implementar o seu projecto de humanização. Podem participar nos grupos de Jesus adultos, sejam eles agnósticos, ateus, ou crentes.

Os grupos de Jesus” não são de nenhuma instituição religiosa ou civil, pertencem àqueles que deles fazem parte. Não têm chefes mas cuidadores voluntários e informais.Todos são iguais e tratados com infinito respeito. Pode entrar-se e sair-se quando se quizer.

Os grupos são temporários porque constituem períodos de aprendizagem prática, de iniciação ou de tirocínio. Enquanto grupos não têm , em princípio, qualquer actividade externa. Terminada a vigência de um grupo, determinada pelos seus membros, cada um, se estiver apaixonado pelo projecto de Jesus, escolherá em que circunstâncias irá prosseguir a sua actividade como colaborador de Jesus: ou em redes não formais, ou/e em organizações da sociedade civil ou/e em organizações e movimentos cristãos.

Voltaremos aos “Grupos de Jesus”. Entretanto pode encontrar na Internet informação sobre a sua disseminação, ainda embrionária, nalguns países. Em Portugal também estão a nascer.

Artur Lemos

NATAL

Dezembro é mês de rituais, como há dias alguém referia na TV; mês de muita barafunda feita de luzes, de músicas, de consumismo, de jantares de Natal, de encontros, de iniciativas de solidariedade, de gastronomia, de atenção às crianças e, tantas vezes tenho sido apanhado pela dúvida sobre o significado ou consistência de tudo isso.

Intimamente reportava-me apenas a elementos tradicionais duma sociedade com marcas de tradição cristã e rural (Missa do Galo, prendas do Menino no sapatinho, algumas guloseimas, presépio…

Persistem também em mim recordações do Natal de 1973: estava isolado numa cela em Caxias; povoaram o meu silêncio a família, os amigos - tantos, a comunidade de Palmela de que era pároco, e um mundo de gente que chamei para ali; como nessa altura era padre, achei que poderia celebrar a missa do galo, com a presença virtual de toda a gente que previamente tinha reunido dentro de mim. Tinha a Bíblia que li, guardei um pedaço do pão de meio quilo que davam todas as manhãs e que eu, pelas grades, repartia com os pardais, e um pouco do vinho tinto da garrafinha de Pedras Negras (passe a publicidade) que tinham dado para o jantar desse dia. Foi um Natal que me marcou.

Hoje sinto a brilhar em mim uma estrela que me reconcilia com todos os sinais de festa do Natal do nosso tempo e do nosso mundo. Não sei porquê, tem-me bailado na memória uma canção dos anos 60, do Padre Aimé Duval, que refiro, traduzida, com pedido de desculpas a quem sabe francês. Era assim:

Senhor, meu amigo, pegaste-me na mão

Irei contigo, sem medo, até ao fim do caminho

Irei contigo, com vento e com frio,

Irei, tu levas-me e eu levo-te comigo

No meu coração.

Por todo o lado há dança, prazer, sorriso,

E eu vou em frente procurando o teu rosto nisto tudo.

É isso: em toda a manifestação de festa, nos jantares de Natal, nos encontros de família, de amigos, nas iniciativas de solidariedade… há um denominador comum: o desejo de encontro com o outro ou com outros, a procura de humanidade. No fundo foi/é isso que levou/leva Deus a revelar-se profunda e discretamente humano em Jesus.

O Sol da festa dos romanos, que o cristianismo batizou, continua nas luzes e mais ainda nas fogueiras onde elas ainda persistem.

O Jesus dos cristãos, mais do que nas missas do galo, nos presépios e nas canções de Natal (que perpetuam gostosamente a poesia com que Francisco de Assis celebrou o nascimento de Jesus) está nessa busca mesmo que discreta de HUMANIDADE presente na coração das pessoas; e há muita gente que, lá no fundo, sente que é esta a vertente mais profunda dos rituais de Dezembro.

AH! Até faço as pazes com o Pai Natal! É que ele veio tirar do Menino Jesus essa má imagem de dar prendas ricas aos meninos ricos e prendas pobres aos meninos pobres

António Correia

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

AUMENTA O  AUTORITARISMO DOS PADRES NAS COMUNIDADES CATÓLICAS DA GRANDE LISBOA
 
No mês de Agosto e na missa vespertina de Sábado em que eu participava, um padre de meia-idade, que não o Pároco, fez uma homilia no mínimo estranha e que se pode resumir no seguinte: tudo funcionará correctamente na Igreja se cada macaco se ativer ao seu galho. Não houve cumprimento da paz como é habitual haver.
No fim da missa fui ter com ele e perguntei-lhe educadamente por que razão tinha suprimido o cumprimento da paz. Respondeu-me assim: "Desejo-lhe um bom Domingo". Insisti duas vezes  e obtive sempre a mesma resposta, a do risco riscado. Como havia já uma fila de pessoas que o queriam cumprimentar despedi-me desejando-lhe também um bom Domingo.
Numa paróquia contígua à minha o Pároco expulsou da Paróquia o grupo dos escuteiros, agrupamento que conta com 60 anos de existência sempre com uma vitalidade e dinamismo extraordinários. Imediatamente antes de vir para esta paróquia fizera o mesmo na paróquia que então pastoreava. Razões de tão estranho comportamento? Não se conhecem.
Um antigo aluno meu, actualmente professor universitário, medianamente conservador do ponto de vista social e religioso, frequenta uma paróquia da Baixa lisboeta. Depois da celebração da missa dirigiu-se ao prior para comentar a homilia que acabava de ouvir. " Sabe, Senhor prior, sobre o assunto da sua homilia tenho uma opinião diferente da sua." Resposta rápida do Prior:" O que conta não é a sua opinião, é a minha." E assim terminou a conversa.
Também numa paróquia da cidade, frequentada por pessoas da classe média alta, numa missa dominical em que participei, o Prior começou por prevenir o povo de Deus que tinha muita febre e que, por isso, não esperassem que a homilia e a celebração tivessem o brilho habitual. Foi algo penoso o que se passou. Porque não recorreu ao diácono que sempre o acompanha como acólito dedicado? O presbítero só tem o exclusivo da celebração da eucaristia não o da celebração da palavra.
Nos últimos tempos o Bispo procura dar voz aos padres na condução da diocese, e bem, e, ao que consta, até o Núncio, que é conhecido por ser um ultramontano empedernido, consulta alguns padres para a escolha dos futuros bispos. Então porque é que os padres não estendem essa abertura ao povo de Deus?
 Há certamente razões que explicam esta tendência crescente dos padres para o autoritarismo. Mas não podemos esquecer o gesto do lava-pés de  Cristo na ceia de despedida e as suas palavras dirigidas ao grupo dos apóstolos: Deveis lavar os pés uns aos outros, como eu, vosso mestre e senhor, o fiz.

Artur Lemos
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

TIREM O AMOR DO MUNDO E QUE FICA?

FICA NADA (Padre Américo)

( texto de autor desconhecido, extraído do livro “O cristianismo”de Hans Kung, C. de leitores,1999, , pg.69)


Obrigação sem amor só desgosta,

Obrigação por amor dá constância


Responsabilidade sem amor faz agir sem brandura

Responsabilidade por amor produz solicitude


Justiça sem amor é dureza de coração

Justiça por amor incute confiança

Educação sem amor suscita contradição

Educação por amor dá paciência


Inteligência sem amor torna manhoso

Inteligência por amor torna compreensivo


Amabilidade sem amor é apenas hipocrisia

Amabilidade por amor é bondade


Ordem sem amor torna mesquinho

Ordem por amor torna magnânimo


Competência sem amor torna capcioso

competência por amor torna digno de confiança


Poder sem amor torna violento

Poder por amor dispõe a ajudar


Honra sem amor torna altivo

Honra por amor torna modesto


Posse sem amor torna avarento

Posse por amor torna generoso


Fé sem amor torna fanático

Fé por amor torna pacífico

CIENTISTAS,INOVADORES E EMPREENDEDORES

O nosso país tem feito progressos notáveis no domínio da ciência ,estimulados pelo falecido e notabilíssimo professor/investigador e ministro, Mariano Gago. Os portugueses apreciam seguramente tais progressos quer na produção científica e tecnológica quer na divulgação da ciência e da tecnologia, duas dimensões essenciais ao desenvolvimento cultural e económico do país.

Num passado mais ou menos remoto as coisas passavam-se de modo diferente do modo como se passam hoje. Nesses outros tempos os cientistas pesquisavam por vocação, por iniciativa própria e à sua própria custa, trabalhavam isolados e não se preocupavam com a utilidade prática das suas descobertas. Actualmente a ciência é obra colectiva, procura também resolver problemas práticos e é encarada pelos Estados como parte das suas missões essenciais a par da defesa, saúde ou educação. A cadeia de produção da ciência tem agora, como consequência, mais dois elos, além do investigador, o inovador e o empreendedor/empresário. E os cientistas,

ao procurarem resolver problemas práticos, saem do círculo fechado da procura do saber pelo saber e entram no mundo do trabalho, da produção de coisas úteis ao bem estar das populações. Os governos dos Estados, pelo seu lado, organizam o trabalho científico e tecnológico em sistemas nacionais de modo a conseguirem melhores resultados.

Portugal tem, como outros países, o seu Sistema Científico e Tecnológico, constituído quase exclusivamente por instituções do sector público, coordenadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Entre as instituições do sector privado, as mais conhecidas são a Fundação Gulbenkian, a Fundação Champalimaud e a Fundação Manuel dos Santos. Trabalham no Sistema Científico e Tecnológico Nacional um pouco mais de 100.000 trabalhadores, assim distribuídos: 80.000 investigadores, 20.000 técnicos e 2.000 nos serviços de apoio.

Acontece que mais ou menos 65.000 são remunerados através de uma bolsa individual, de duração variável e de renovação sempre incerta e que entra na categoria jurídica dos subsídios. Os cientistas

são, pois, trabalhadores precários que recebem apenas quando trabalham, não têm direito a serem associados à gestão do seu próprio trabalho, não têm´direito a subsídio de desemprego, a marcar férias,a subsídio pleno de doença, a fazer greve...

Não há dúvida que é justo, rentável e urgente integrá-los no regime jurídico de contrato de trabalho nas suas várias modalidades, nomeadamente a de contrato a tempo parcial. É imprescindível,porém, ter em conta quer as características específicas deste tipo de trabalho quer as ligações estreitas que tem com o ensino superior e que exigem muitíssimo mais flexibilidade do que aquela que é permitida pelo contrato normal de trabalho, desenhado tendo como modelo o trabalho fabril. Ao integrá-los na Administração Pública importa também fazê-lo com a participação deles e com uma dupla perspectiva, a do interesse dos indivíduos e dos seus grupos profissionais e a do bem comum as quais, infelizmente , nem sempre coincidem. E nem sempre também o bem comum leva vantagem sobre os interesses dos grupos profissionais, o que é contrário ao bem-estar da sociedade e dos seus membros.

Quanto à inovação e aos inovadores desenvolvem-se quando investigadores e empresários/empreendedores se juntam e trabalham em colaboração uns com os outros na procura de novos produtos e novos processos. Uns e outros têm que traçar caminhos que os levem a esses encontros virtuosos.

O número e qualidade de empresários/ empreendedores é claramente insuficiente como o demonstra a debilidade da nossa economia desde o início da revolução industrial.

Actualmente, os portugueses preferem ser assalariados a ser empresários/empreendedores.Geralmente procuram um emprego que lhes ofereça boas condições de trabalho sobretudo remuneratórias.

A educação familiar e a educação escolar desmerecem a alternativa empresarial em favor do assalariamento porque este é seguramente muito menos arriscado do que aquela. Efectivamente 80% da população activa não tem nem competências específicas, nem poder relacional, nem condições materiais que lhes permita lançar uma empresa com sucesso nem,muitas vezes, um auto emprego . Por outro lado, o discurso anticapitalismo e anticapitalista junto com a mais recente crítica ao empreendedorismo e à empregabilidade têm contribuido para o desacreditar junto dos 20% que teriam condições objectivas de o efectivar com mais ou menos sucesso. E assim, o mais comum dentro desse grupo de privilegiados, é, ainda ( pasme-se), aspirar-se a um emprego de quadro na Administração Pública .

Que fazer, então , como cidadão activo?

. Valorizar a missão do empreendedor/ empresário e a forma da empresa-cooperativa.
. Enquanto assalariado pertencente ao grupo dos 20 ou 30% de privilegiados,

criar empresas. Permitam-me que cite o meu caso. Fui durante 40 anos assalariado no sector privado nacional e multinacional e, ao longo desse tempo, criei, com outros, um bar, uma editora de livros técnicos e uma cooperativa de solidariedade social ( lar de idosos).

. Do capital que for conseguindo acumular ao longo dos anos de vida, destinar metade a reforçar a segurança de familiares actuais e vindouros e a outra metade, investi-lo em projectos económicos, sociais ou culturais, de preferência lançados por jovens empreendedores.


Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

VALORIZAR O TRABALHO E OS TRABALHADORES

Passámos em Portugal, nos últimos anos, por uma crise económico-financeira que piorou significativamente as condições de trabalho dos assalariados, reduzindo o emprego e as remunerações e aumentando a precariedade e o autoritarismo da gestão empresarial. Convém, entretanto, sublinhar que o trabalho mesmo, está a passar por uma crise profundíssima provocada pela robotização, pela informatização e pela globalização. A manter-se esta tendência haverá cada vez menos emprego para a população mundial que, entretanto, continua a crescer exponencialmente e entre os empregos disponíveis acentuar-se-á drasticamente o fosso entre os empregos muito qualificados e os muito pouco qualificados.
Em Portugal, em geral e sobretudo nas empresas privadas, o trabalho é pouco valorizado. É que as empresas portuguesas funcionam de acordo com o “modelo capitalista” de empresa. Nesse quadro, o patrão remunera os trabalhadores pelo mínimo aceitável pelo mercado de trabalho e procura maximizar o capital. Além disso, o patrão entende que o facto de ter adquirido os instrumentos de trabalho, instalações, terrenos, equipamentos..., lhe dá poder ilimitado sobre os trabalhadores, tornando a relação com eles relação de pura subordinação, às vezes mais suave e, outras vezes, mais crispada. Os governos, de acordo com a sua cor política e com os preceitos constitucionais, defendem mais ou menos os trabalhadores que constituem a parte mais débil da relação laboral. Os sindicatos, esses, defendem realmente os trabalhadores , embora privilegiando processos peculiares às suas diferentes tradições.
Há uma alternativa (há mais...) ao modelo capitalista que é o modelo da empresa cooperativa. Em síntese, o conjunto dos trabalhadores são proprietários da empresa cooperativa, auferem salários mais equilibrados, as relações de trabalho são de cooperação e não de subordinação e os excedentes (lucros) são distribuídos igualitariamente pelos coooperadores.
Portugal, infelizmente, tem utilizado muito pouco este modelo , embora, no passado recente, as cooperativas do vinho e do leite (cooperativas atípicas) tenham favorecido os vinhateiros e os produtores de leite e modernizado os processos de fabrico e de vendas.
Pelos menos metade da população activa portuguesa actual, porém, mesmo que quisesse, não estaria em condições de trabalhar em cooperativas. É que esses trabalhadores têm que receber necessariamente as suas remunerações no fim do mês para assegurarem a sobrevivência das suas famílias e as cooperativas não acumulam capital suficiente para aguentar quebras prolongadas de produção e de vendas e têm grande dificuldade em aceder ao crédito dos Bancos Capitalistas. Necessitam de Bancos cooperativos ou éticos e não os há no nosso país. Entre nós existe apenas algo de parecido e destinado prioritariamente ao sector agrícola que é o Sistema Integrado de Crédito Agrícola Mútuo. Este Sistema enquadra 82 caixas com 700 agências espalhadas pelo Continente e Ilhas. O sucesso desta rede de caixas (escapou à crise dos bancos capitalistas que arruinou o país) está em perigo face à investida do “ Banco CTT “, um banco capitalista recentemente lançado pelos CTT privatizados. Este novo Banco aproveita o prestígio que os CTT construíram nos últimos anos e a ignorância de que já não se trata de uma instituição pública, em princípio mais segura. Acresce ainda que os novos CTT privatizados continuam a centralizar a venda de Certificados do Tesouro (nacional) e agora estão a multiplicar “as lojas do cidadão”, depois de terem suprimido centenas de estações de correio Atenção cidadãos activos. Não podemos repetir os erros do passado recente: deixarmo-nos enganar pelos Bancos capitalistas e, depois, querermos que todos os cidadãos nos venham restituir o dinheiro que perdemos ou que nos extorquiram habilmente.
Não se pode perder uma rede bancária não capitalista que tem rentabilidade provada e que presta um serviço notável ao sector agrícola e às populações rurais e do interior.
Actualmente é muito difícil criar postos de trabalho permanentes e qualificados num qualquer país excepto naturalmente no sector público administrativo, e os criados , excepto os precários, são em número muito inferior aos que se perdem por obra da informatização , da robotização e da globalização.
Por isso os trabalhadores têm de virar-se para a emigração especializada e para o mercado global onde o que conta é a competência. Digo competência e não apenas certificado ou diploma, embora um certificado de uma instituição com prestígio global constitua uma mais valia. E competências são capacidades teórico-práticas capazes de produzir produtos e serviços de excelência. É, pois, necessário e urgente reforçar significativamente a formação profissional dos trabalhadores qualificados nas novas tecnologias da informação e nas novas/velhas tecnologias substantivas (metalomecânica, electrónica, automação, energias renováveis...)

Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

LUTAR CONTRA A ECONOMIA PARALELA

Duas notícias na mesma semana de Novembro de 2017 vieram recordar-me a luta contra a economia paralela que é missão permanente da cidadania activa.
Uma delas referia que o preço das casas em Lisboa e no Porto fica registado nos respectivos contratos de venda 8% abaixo do preço pelo qual são transaccionadas, com evidente lucro para quem vende e prejuízo para o Estado. De resto esta prática é relativamente comum entre vendedores e compradores individuais, no sector da habitação e noutros sectores.A outra notícia era sobre as somas avultadíssimas de dinheiro depositadas no paraíso fiscal das Ilhas Caimão, pagando impostos menores que nos países de origem e em que está envolvida, ao que parece, a própria Rainha de Inglaterra e cerca de uma centena de cidadãos portugueses.
Lembro agora aos cidadãos activos alguns dados e armas que nos podem ajudar a tornar esta luta mais razoável e mais eficaz.
Em 2007, antes da crise, por conseguinte, e entre os países (15) da União Europeia, Portugal ocupava o 13º lugar com 22% de economia paralela estimada e referenciada ao Produto Interno Bruto (PIB). Com economia paralela mais elevada só a Grécia e a Itália (26%).
Em geral as famílias recorrem mais à economia paralela do que as empresas e os ricos mais do que os pobres.
Há dois tipos de economia paralela, a economia subterrânea e a economia informal. Esta, em geral, é praticada às claras, e é utilizada por indivíduos com graves problemas de subsistência e, nalguns casos, por arrivistas sociais (biscates, vendas de rua, feirotos ...) . Aquela, a economia subterrânea, é praticada por empresas e indivíduos inseridos na economia formal e que aproveitam os paraísos fiscais, os escaninhos das leis (planeamento fiscal …), a moleza das autoridades fiscais e a tolerância da sociedade, para fugirem aos impostos. Qualquer delas ofende os princípios dos Estados de direito, como é o nosso, mas a economia informal é muito menos grave porque é dever de qualquer Estado proporcionar condições mínimas de subsistência dentro do quadro das suas próprias leis, o que relativamente a alguns cidadãos não se verifica. Por isso a sociedade em geral e o Estado têm de ser muito mais tolerantes para esse tipo de economia, aceitando que, em tempo de vacas magras, ela tende a crescer (desemprego, endividamento...) e que, quando a economia volta a crescer, é o momento mais adequado para a conter.
Não é possível extirpar por completo a economia paralela, subterrânea ou informal mas é possível reduzi-la para níveis mais aceitáveis como os dos Estados Unidos da América ou da Áustria que têm os níveis mais baixos de economia paralela conhecidos (9%).
Só é possível conter ou reduzir a economia paralela através da cooperação estreita entre os governos e os cidadãos, unidos pelo mesmo objectivo de encontrar recursos financeiros através dos impostos , que promovam melhor saúde, melhor educação, melhores transportes, melhor cultura...
Admitindo que hoje em dia a economia paralela estimada, em Portugal, representa 22% do PIB , isto é, 35 mil milhões de euro, se fizéssemos descer a economia paralela um ponto percentual, seriam, pelo menos, mais duzentos milhões de euro que entrariam anualmente nos cofres do Estado para utilizar nos bens comuns a todos os cidadãos. E se conseguíssemos baixar 1% por ano durante cinco anos consecutivos , no 5º ano, o Estado arrecadaria mil milhões de euro.
Que pode e deve fazer um cidadão activo neste domínio do combate à economia paralela e à fraude fiscal?
Utilizar, o mais possível , o Multibanco para pagamentos e outros movimentos de modo a tornar possível seguir o rasto do dinheiro que escapou ao fisco. Movimentos em dinheiro vivo (moedas e notas) não deixam rasto.
Exigir, nas situações previstas pela lei fiscal, a inserção do número fiscal ou, no mínimo, que a transação efectuada seja registada no sistema legal de registo. A este propósito convém recordar que actualmente a única forma de assegurar deduções à colecta em sede de IRS é através da identificação das facturas com número fiscal.
Por vezes somos confrontados com situações e opiniões que nos deixam perplexos e sem palavras.
Diz-nos quem está pronto a vender-nos um serviço: “ Com IVA são 250 € e sem IVA são 193 €. O que prefere?” A nossa resposta de cidadãos activos só pode ser “ com IVA, naturalmente”. Mas quem vende está pressionar-nos, de modo subtil e enganador, em sentido contrário. Sabemos que podemos poupar 57€ e que quem vende tem contabilidade organizada e que vai lucrar com o não pagamento de IVA, diminuindo a sua massa colectável . O negócio parece-nos excelente porque ganham os dois parceiros. Esquecemos, porém, que quem perde é o bem comum e em duas frentes.
Cruzamo-nos com pessoas que justificam a fuga aos impostos com razões diversas.
A quem diz fugir aos impostos porque são excessivos, muitas vezes comparando-os com as práticas de outros países, pode responder-se: “É provável mas uma forma ao nosso alcance para os fazermos baixar é aumentar o número dos que os pagam”.
A quem alegar que os impostos são mal utilizados pelos governos para justificar a fuga ao fisco poder-se-à talvez contrapor o seguinte: “Concordo que os governos nem sempre os utilizam em benefício da comunidade. Entretanto, em democracia, a solução é mudar os governos para que façam melhor.”



Artur Lemos

domingo, 3 de dezembro de 2017

CIDADANIA ACTIVA

PATRIOTISMO ECONÓMICO



Neste tempo de globalização e, simultaneamente, de nacionalismos exarcerbados, será sensato incitar à compra de produtos produzidos em Portugal apelando para o patriotismo dos portugueses?

Creio que sim e vou tentar explicar brevemente as minhas razões.

Antes de mais sobre o que entendo por patriotismo e nada mais simples do que citar o General de Gaulle, patriota insuspeito “Patriotismo é quando prevalece o amor pelos teus e nacionalismo é quando prevalece o ódio por todos os outros”.

Actualmente o mundo hesita entre trilhar o caminho da globalização e o caminho dos nacionalismos autárcicos e xenófobos.

Ninguém sabe o que vai acontecer no futuro próximo mas, na minha opinião, seria bem melhor que triunfasse a globalização, corrigida, por um lado, nos seus excessos de consumismo, de ditadura de mercado e economia de casino e, por outro, se articulasse com uma perspectiva saudável de nacionalismo, que atrás designamos como patriotismo.

A globalização económica implica a existência dum só mercado, o mercado mundial, o que significa que mesmo os produtos originários dos lugares mais recônditos estão em concorrência, directa ou indirecta, com todos os outros. Ora, talvez com excepção dos produtos-serviços, para uma empresa e um produto industrial ou agrícola poder vingar neste mercado verdadeiramente mundial, precisa de ter sucesso, primeiro, no país de origem. É por isso que se torna indispensável que os cidadãos/consumidores desse país comprem preferencialmente o produto ou produtos próprios, pelo menos até eles conseguirem um lugar sólido no mercado mundial.

Nos últimos anos houve 4 produtos portugueses que conseguiram afirmar-se no mercado mundial, cada um à sua maneira e em diversa escala: os vinhos, o calçado, os medicamentos e o papel. A história do sucesso mundial dos nossos vinhos é bem conhecida e vem de longe.

Nos anos 60 e 70 várias multinacionais instalaram-se em Portugal para produzir calçado, atraídas pelos baixos salários e pelo profissionalismo dos operários portugueses. Mas, nos anos 90 do século passado, deslocalizaram as suas produções para paragens com salários ainda mais baixos. Foi então que o sector do calçado se reinventou pela mão sábia e patriótica de empresários, cientistas, técnicos , operários e consumidores e adquiriu um lugar destacado no mercado global.

Outro caso de sucesso no mercado global é o da Bial, empresa sediada na Trofa, mas em menor escala e com dificuldades acrescidas num mercado particularmente difícil como é o dos medicamentos,.

A Renova, empresa de Torres Novas, que desde 1939 transforma a pasta em papel,conseguiu, nas duas últimas décadas, alcandorar-se ao 1º lugar mundial entre as empresas de referência do papel higiénico (multicolor), rolo de papel para cozinha, lenços de papel e guardanapos.

Chamo agora a atenção do patriota consumidor que me lê para três casos recentes.

Será que o sector das conservas de peixe, que chegou a fornecer um alimento frequente à mesa dos pobres e remediados, vai conseguir tornar-se um produto gourmet à escala mundial, aproveitando a escassez de peixe fresco? Temos armas para o conseguir: o peixe pescado no nosso mar tem características próprias e temos comprovada experiência das técnicas de conservação do peixe.

O sector da confecção portuguesa está a evoluir de modo absolutamente surpreendente graças à utilização da cortiça no vestuário, calçado, chapelaria e adereços. Como se sabe, a cortiça é um produto biológico como a lã e o algodão e é produzido pelo sobreiro que o nosso Parlamento consagrou como árvore emblemática de Portugal Há condições para tornar esta nova fileira da cortiça, a juntar às rolhas e à corticite, num produto de grande consumo, concorrente das fibras sintéticas e do couro.

A Science Four, empresa portuguesa criada recentemente, produz e comercializa brinquedos pedagógicos no domínio da ciência e da tecnologia. Terá sucesso e internacionalizar-se-à se contar com o apoio dos cidadãos consumidores portugueses, apoio esse que contribui não apenas para o enriquecimento económico mas para o seu enriquecimento cultural tanto mais quanto a nossa sociedade em geral tem necessidade premente de aumentar significativamente a sua cultura científica

Diz-se, por vezes, que as empresas não podem ser patriotas, o que as move é o lucro e a eficiência. Há muitos casos de empresas globais de diversos países, ricos e pobres, porém, que, sem perderem a eficiência, se interajudam nos processos de globalização e que tomam decisões que têm em conta o interesse nacional. A Swatch, a famosa marca de relógios suiça e de automóveis urbanos, declinou uma oferta dos Estados Unidos para lá instalar fábricas , com benefícios fiscais gigantescos e com salários mais baixos que os praticados na Suiça.

E a empresa de mobiliário sueca IKEA, nos restaurantes das suas lojas, promove produtos e culinária suecos. Em geral os nossos emigrantes ajudam-se uns aos outros mas as empresas nacionais a operar no estrangeiro nem sempre têm isso em conta. Poderia constituir um contributo não despiciendo para a sua globalização.



Artur Lemos