Neste tempo
de globalização e, simultaneamente, de nacionalismos exarcerbados,
será sensato incitar à compra de produtos produzidos em Portugal
apelando para o patriotismo dos portugueses?
Creio que
sim e vou tentar explicar brevemente as minhas razões.
Antes de
mais sobre o que entendo por patriotismo e nada mais simples do que
citar o General de Gaulle, patriota insuspeito “Patriotismo é
quando prevalece o amor pelos teus e nacionalismo é quando
prevalece o ódio por todos os outros”.
Actualmente
o mundo hesita entre trilhar o caminho da globalização e o caminho
dos nacionalismos autárcicos e xenófobos.
Ninguém
sabe o que vai acontecer no futuro próximo mas, na minha opinião,
seria bem melhor que triunfasse a globalização, corrigida, por um
lado, nos seus excessos de consumismo, de ditadura de mercado e
economia de casino e, por outro, se articulasse com uma perspectiva
saudável de nacionalismo, que atrás designamos como patriotismo.
A
globalização económica implica a existência dum só mercado, o
mercado mundial, o que significa que mesmo os produtos originários
dos lugares mais recônditos estão em concorrência, directa ou
indirecta, com todos os outros. Ora, talvez com excepção dos
produtos-serviços, para uma empresa e um produto industrial ou
agrícola poder vingar neste mercado verdadeiramente mundial, precisa
de ter sucesso, primeiro, no país de origem. É por isso que se
torna indispensável que os cidadãos/consumidores desse país
comprem preferencialmente o produto ou produtos próprios, pelo menos
até eles conseguirem um lugar sólido no mercado mundial.
Nos últimos
anos houve 4 produtos portugueses que conseguiram afirmar-se no
mercado mundial, cada um à sua maneira e em diversa escala: os
vinhos, o calçado, os medicamentos e o papel. A história do sucesso
mundial dos nossos vinhos é bem conhecida e vem de longe.
Nos anos 60
e 70 várias multinacionais instalaram-se em Portugal para produzir
calçado, atraídas pelos baixos salários e pelo profissionalismo
dos operários portugueses. Mas, nos anos 90 do século passado,
deslocalizaram as suas produções para paragens com salários ainda
mais baixos. Foi então que o sector do calçado se reinventou pela
mão sábia e patriótica de empresários, cientistas, técnicos ,
operários e consumidores e adquiriu um lugar destacado no mercado
global.
Outro caso
de sucesso no mercado global é o da Bial, empresa sediada na Trofa,
mas em menor escala e com dificuldades acrescidas num mercado
particularmente difícil como é o dos medicamentos,.
A Renova,
empresa de Torres Novas, que desde 1939 transforma a pasta em
papel,conseguiu, nas duas últimas décadas, alcandorar-se ao 1º
lugar mundial entre as empresas de referência do papel higiénico
(multicolor), rolo de papel para cozinha, lenços de papel e
guardanapos.
Chamo agora
a atenção do patriota consumidor que me lê para três casos
recentes.
Será que o
sector das conservas de peixe, que chegou a fornecer um alimento
frequente à mesa dos pobres e remediados, vai conseguir tornar-se um
produto gourmet à escala mundial, aproveitando a escassez de peixe
fresco? Temos armas para o conseguir: o peixe pescado no nosso mar
tem características próprias e temos comprovada experiência das
técnicas de conservação do peixe.
O sector da
confecção portuguesa está a evoluir de modo absolutamente
surpreendente graças à utilização da cortiça no vestuário,
calçado, chapelaria e adereços. Como se sabe, a cortiça é um
produto biológico como a lã e o algodão e é produzido pelo
sobreiro que o nosso Parlamento consagrou como árvore emblemática
de Portugal Há condições para tornar esta nova fileira da cortiça,
a juntar às rolhas e à corticite, num produto de grande consumo,
concorrente das fibras sintéticas e do couro.
A Science
Four, empresa portuguesa criada recentemente, produz e comercializa
brinquedos pedagógicos no domínio da ciência e da tecnologia. Terá
sucesso e internacionalizar-se-à se contar com o apoio dos
cidadãos consumidores portugueses, apoio esse que contribui não
apenas para o enriquecimento económico mas para o seu enriquecimento
cultural tanto mais quanto a nossa sociedade em geral tem necessidade
premente de aumentar significativamente a sua cultura científica
Diz-se, por
vezes, que as empresas não podem ser patriotas, o que as move é o
lucro e a eficiência. Há muitos casos de empresas globais de
diversos países, ricos e pobres, porém, que, sem perderem a
eficiência, se interajudam nos processos de globalização e que
tomam decisões que têm em conta o interesse nacional. A Swatch, a
famosa marca de relógios suiça e de automóveis urbanos, declinou
uma oferta dos Estados Unidos para lá instalar fábricas , com
benefícios fiscais gigantescos e com salários mais baixos que os
praticados na Suiça.
E a empresa
de mobiliário sueca IKEA, nos restaurantes das suas lojas, promove
produtos e culinária suecos. Em geral os nossos emigrantes
ajudam-se uns aos outros mas as empresas nacionais a operar no
estrangeiro nem sempre têm isso em conta. Poderia constituir um
contributo não despiciendo para a sua globalização.
Artur Lemos
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