domingo, 3 de dezembro de 2017

CIDADANIA ACTIVA

PATRIOTISMO ECONÓMICO



Neste tempo de globalização e, simultaneamente, de nacionalismos exarcerbados, será sensato incitar à compra de produtos produzidos em Portugal apelando para o patriotismo dos portugueses?

Creio que sim e vou tentar explicar brevemente as minhas razões.

Antes de mais sobre o que entendo por patriotismo e nada mais simples do que citar o General de Gaulle, patriota insuspeito “Patriotismo é quando prevalece o amor pelos teus e nacionalismo é quando prevalece o ódio por todos os outros”.

Actualmente o mundo hesita entre trilhar o caminho da globalização e o caminho dos nacionalismos autárcicos e xenófobos.

Ninguém sabe o que vai acontecer no futuro próximo mas, na minha opinião, seria bem melhor que triunfasse a globalização, corrigida, por um lado, nos seus excessos de consumismo, de ditadura de mercado e economia de casino e, por outro, se articulasse com uma perspectiva saudável de nacionalismo, que atrás designamos como patriotismo.

A globalização económica implica a existência dum só mercado, o mercado mundial, o que significa que mesmo os produtos originários dos lugares mais recônditos estão em concorrência, directa ou indirecta, com todos os outros. Ora, talvez com excepção dos produtos-serviços, para uma empresa e um produto industrial ou agrícola poder vingar neste mercado verdadeiramente mundial, precisa de ter sucesso, primeiro, no país de origem. É por isso que se torna indispensável que os cidadãos/consumidores desse país comprem preferencialmente o produto ou produtos próprios, pelo menos até eles conseguirem um lugar sólido no mercado mundial.

Nos últimos anos houve 4 produtos portugueses que conseguiram afirmar-se no mercado mundial, cada um à sua maneira e em diversa escala: os vinhos, o calçado, os medicamentos e o papel. A história do sucesso mundial dos nossos vinhos é bem conhecida e vem de longe.

Nos anos 60 e 70 várias multinacionais instalaram-se em Portugal para produzir calçado, atraídas pelos baixos salários e pelo profissionalismo dos operários portugueses. Mas, nos anos 90 do século passado, deslocalizaram as suas produções para paragens com salários ainda mais baixos. Foi então que o sector do calçado se reinventou pela mão sábia e patriótica de empresários, cientistas, técnicos , operários e consumidores e adquiriu um lugar destacado no mercado global.

Outro caso de sucesso no mercado global é o da Bial, empresa sediada na Trofa, mas em menor escala e com dificuldades acrescidas num mercado particularmente difícil como é o dos medicamentos,.

A Renova, empresa de Torres Novas, que desde 1939 transforma a pasta em papel,conseguiu, nas duas últimas décadas, alcandorar-se ao 1º lugar mundial entre as empresas de referência do papel higiénico (multicolor), rolo de papel para cozinha, lenços de papel e guardanapos.

Chamo agora a atenção do patriota consumidor que me lê para três casos recentes.

Será que o sector das conservas de peixe, que chegou a fornecer um alimento frequente à mesa dos pobres e remediados, vai conseguir tornar-se um produto gourmet à escala mundial, aproveitando a escassez de peixe fresco? Temos armas para o conseguir: o peixe pescado no nosso mar tem características próprias e temos comprovada experiência das técnicas de conservação do peixe.

O sector da confecção portuguesa está a evoluir de modo absolutamente surpreendente graças à utilização da cortiça no vestuário, calçado, chapelaria e adereços. Como se sabe, a cortiça é um produto biológico como a lã e o algodão e é produzido pelo sobreiro que o nosso Parlamento consagrou como árvore emblemática de Portugal Há condições para tornar esta nova fileira da cortiça, a juntar às rolhas e à corticite, num produto de grande consumo, concorrente das fibras sintéticas e do couro.

A Science Four, empresa portuguesa criada recentemente, produz e comercializa brinquedos pedagógicos no domínio da ciência e da tecnologia. Terá sucesso e internacionalizar-se-à se contar com o apoio dos cidadãos consumidores portugueses, apoio esse que contribui não apenas para o enriquecimento económico mas para o seu enriquecimento cultural tanto mais quanto a nossa sociedade em geral tem necessidade premente de aumentar significativamente a sua cultura científica

Diz-se, por vezes, que as empresas não podem ser patriotas, o que as move é o lucro e a eficiência. Há muitos casos de empresas globais de diversos países, ricos e pobres, porém, que, sem perderem a eficiência, se interajudam nos processos de globalização e que tomam decisões que têm em conta o interesse nacional. A Swatch, a famosa marca de relógios suiça e de automóveis urbanos, declinou uma oferta dos Estados Unidos para lá instalar fábricas , com benefícios fiscais gigantescos e com salários mais baixos que os praticados na Suiça.

E a empresa de mobiliário sueca IKEA, nos restaurantes das suas lojas, promove produtos e culinária suecos. Em geral os nossos emigrantes ajudam-se uns aos outros mas as empresas nacionais a operar no estrangeiro nem sempre têm isso em conta. Poderia constituir um contributo não despiciendo para a sua globalização.



Artur Lemos

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