sexta-feira, 23 de março de 2018


CAMINHOS DE PROGRESSO PARA A CLASSE MÉDIA BAIXA

A classe média, em Portugal, corresponde a metade da população. A outra metade é constituída por pobres dependentes dos apoios da comunidade (20%) e por trabalhadores pobres, a maior parte deles do sector industrial e agrícola (30%).
Na classe média há que distinguir, porém, dois segmentos, a classe média alta e a classe média baixa. Aquela aufere rendimentos acima dos 50.000 € anuais e exerce grande influência sobre a governação do País através de redes associativas e familiares e da sua forte representação no aparelho de Estado. É a classe dirigente e representará 15% da população. Os capitalistas são pouquíssimos mas com grande poder económico e encontram-se num patamar inacessível à classe média alta.Daí que a grande preocupação desta classe seja distanciar-se da classe média baixa.
A classe média baixa situa-se quase exclusivamente nos serviços ( trabalhadores de colarinhos brancos) e procura demarcar-se dos trabalhadores da indústria e da agricultura mais pelo estilo de vida ( horário de trabalho de 35 horas, viatura familiar, férias na praia, consumismo...) do que pelos rendimentos. Em muitos casos ganham tanto ou menos que os trabalhadores da indústria mas consideram-se elementos da classe média e, em geral, não se mostram muito compreensivos com as actividades e as lutas dos proletários da indústria e da agricultura.
A crise e o programa de austeridade subsequente com a consequente redução de rendimentos vieram pôr a descoberto a bolha da dívida das famílias da classe média baixa. A dívida das famílias atinge actualmente 100% do PIB. Foi a dívida que lhes permitiu viver durante alguns anos a ilusão de pertencerem à classe média real, ilusão certamente legítima e compreensível mas nem por isso menos fictícia.
Uma outra característica da classe média baixa nacional tem a ver com a sua débil proactividade e sentido do colectivo. A maior parte dos elementos que dela fazem parte entregam-se à inveja, à lamúria, à subserviência aos pequenos poderes ou acomodam-se tranquilamente ao poucochinho mas segurinho. Os sectores profissionais mais dinâmicos, que os há, procuram juntar-se à classe média alta.
A situação actual da classe média baixa poderá melhorar se:
  • Investir mais na formação geral e profissional. A educação/instrução é o promotor social mais eficaz no presente e tornar-se-à ainda mais importante no futuro próximo.
  • Passar a ter uma participação muitíssimo mais forte nas organizações sindicais, cívicas e culturais (Sindicatos dos trabalhalhadores do comércio, bancários, técnicos de vendas... Rotários, Deco...Clubes de campismo e caravanismo...).
E apoiar a nova classe operária, suas organizações e lutas, porque ela está ao seu nível de rendimentos e de conhecimentos e tem trabalho limpo. Além disso , sem desenvolvimento industrial e com a consequente intervenção dos trabalhadores do sector parece que o País não criará uma dinâmica de crescimento que permita a promoção da classe média baixa. E os elementos da classe média baixa cujos pais eram operários têm aqui uma excelente ocasião para se reconciliarem com as suas origens.
  • Abraçar, e por esta ordem de prioridades, os sectores seguintes do Estado social: Segurança social, Saúde e Educação. A promoção e requalificação do Estado social implica, porém, não só a reivindicação mas também a prática da virtude fiscal da parte dos cidadãos e a prática de rigor e eficiência da parte dos trabalhadores do Estado que prestam esses serviços.
  • Adoptar um estilo de vida de frugalidade ecológica, isto é, de não consumismo desabrido como é o que actualmente campeia entre os membros da classe média em geral. Só que os membros da classe média alta dispõem de recursos que lhes permitem consumir e desperdiçar desporadamente sem prejudicarem outros objectivos exenciais de vida. Exemplos: preferir o transporte colectivo (ferroviário, rodoviário) ao tranporte individual; preferir uma alimentação saudável a uma alimentação gourmet; preferir o arrendamento de casa a casa própria; preferir férias em Portugal a férias no estrangeiro...
Tudo isto fará muito mais sentido se o nosso país, orientado por uma classe dirigente mais virada para o bem comum de todos os cidadãos, assumir, como projectos inadiáveis para a próxima década, a duplicação do PIB, a duplicação do número actual da população activa com formação superior, a gestão eficiente da água e da floresta e o rejuvenescimento demográfico.


Artur Lemos Azevedo
























terça-feira, 20 de março de 2018


UMA IGREJA (TEMPLO) INSPIRADORA DE UM CATOLICISMO RENOVADO – A IGREJA DA SENHORA DOS NAVEGANTES DO PARQUE DAS NAÇÕES (LISBOA)

Tenho muita sorte porque, a uma distância média de 400 metros da minha residência, encontro três igrejas paroquiais e uma igreja de um Seminário que documentam algumas das fases da renovação da arte sacra na diocese de Lisboa iniciada no fim dos anos cincoenta do século passado. A mais recente (2014), obra do arquitecto José Maria Dias Coelho, é aquela de que mais gosto quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista funcional quer do ponto de vista da sua inspiração católica. Trata-se da Igreja paroquial da Senhora dos Navegantes do Parque das Nações de Lisboa.

Está situada entre, de um lado, habitações (apartamentos e moradias da classe média alta ) e, do outro, os jardins da beira Tejo. Acompanham-na, a curta distância, o Centro pastoral e o Auditório paroquial.

Olhando-a de frente e a uma distância de 50 metros, descobre-se uma cruz cavada na fachada e, em sobreposição e a uma altura de 40 metros, a torre sineira constituída por dois pilares/mastros de uma embarcação.

Quando se entra pela porta principal deparamos com um espaço amplo ,em círculo e calota ao fundo, destinado à celebração da missa pela assembleia dos fieis ( 700). Os pilares deste salão, dispostos em arco, evocam o cavername de um barco de madeira e o revestimento das paredes das galerias em tiras de madeira sugerem as ondas do mar.

Em linha recta em direcção ao fundo do salão encontra-se, junto ao paravento da entrada, a pia baptismal cavada num grande bloco com aparência de rocha e depois, a uma distância de cerca de 10 metros, surge o altar-mor, ampla mesa rectangular de mármore. São os dois equipamentos necessários e suficientes para a celebração dos dois sacramentos fundamentais da fé cristã. Em plano levemente superior e encostado à parede de fundo fica o lugar reservado ao clero que preside e anima a celebração.

Na parede de fundo encontramos três paineis, em baixo relevo, um ao centro, de maior dimensão e dois colocados à direita e à esquerda dele. O painel da esquerda representa a ceia e o lava-pés e é confeccionado com azulejos lisos de cor branca e parda de modo a esboçar a imagem pretendida em “sfumato”. O painel da direita, feito com a mesma técnica, representa as bodas de Caná . O do centro, feito em reboco e em baixo relevo, representa a transfiguração de Cristo.

Sublinhe-se que os temas escolhidos constituem um síntese perfeita da mensagem cristã: Cristo filho de Deus e filho do homem, amor e serviço. “O sfumato” não distrai os fieis que participam nas celebrações como seria o caso se os paineis fossem realistas mas recorda-lhes que a fé vê o invisível no visível.

A capela do Santíssimo Sacramento está situada atrás da parede de fundo, com discreção e funcionalidade perfeitas.Quando termina a celebração eucarística recolhem-se as hóstias que restaram no sacrário , inserido na parede e dotado de duas frentes, uma que dá para a Igreja e a outra que dá para a capela do Santíssimo. Esta capela está sinalizada por um vitral abstracto de cor azul colocado atrás do sacrário.Ainda a respeito de discreção note-se que a imagem da Senhora dos Navegantes está colocada na capela do Santíssimo e que a cruz que preside às celebrações do povo de Deus é trazida e recolhida processionalmente para cada celebração, em contraste com a profusão de cruzes que enche muitas das nossas igrejas do periodo da contra-reforma e não só.

Em termos de funcionalidade há que acrescentar, ainda, a existência, debaixo das galerias, de dois espaços com isolamento acústico e parede de vidro, destinados aos pais com crianças de tenra idade.

Em síntese, aprecio a leveza, a luminosidade e a originalidade desta Igreja/templo, a sua funcionalidade, e a capacidade demonstrada para enquadrar e estimular a renovação evangélica da Igreja Católica que, como diziam os cristãos de há muitos séculos ,está em renovação permanente, “Ecclesia semper reformanda”.


Artur Lemos








segunda-feira, 19 de março de 2018


QUE RAZÕES TÊM OS CATÓLICOS PRATICANTES PORTUGUESES E SEUS PASTORES PARA NÃO ADERIREM À REFORMA EVANGÉLICA DO PAPA FRANCISCO

Duas razões, uma ligada ao modo como o Papa Francisco exerce a sua missão de Papa e a outra relativa à reforma evangélica que propõe.

Os países latinos do Sul da Europa protagonizaram o combate contra a reforma protestante e, nessa luta, moldaram os traços essenciais da sua concepção e prática do cristianismo, a saber e em termos muito gerais.

Ideia de um Deus justiceiro e poderoso, secundarizando a sua misericórdia, primeiro atributo do “Deus de Jesus Cristo” ; Primazia conferida ao culto (Sacramentos, oração, devoção aos santos...), em detrimento da fé/amor aos outros; A salvação consiste primariamente em conseguir um lugar no céu e secundariamente em viver o mais humanamente possível na terra; Procura de luz e alento na mãe de Jesus subestimando o papel mediador do seu filho e Filho de Deus; A comunidade dos crentes em Cristo, A Igreja, é tida como rebanho iluminado e disciplinado pelos representantes auto-assumidos de Cristo (clero) e não como serviço humilde do povo de Deus; Devoção ao Papa, juiz último da verdade e das consciências.

O Papa Francisco tem um outro entendimento do seu papel na Igreja. Na prática encara-o como serviço do povo de Deus de acordo com o lema que vem desde há muitos séculos: Servo dos servos de Deus. E isso confunde os católicos praticantes portugueses e os seus pastores e leva a ignorá-lo respeitosamente. Noutros países, porém, mesmo entre o clero católico, há ódio e fúria declarados.

Ao longo dos cinco séculos que já leva o modelo do cristianismo português esculpido contra a reforma protestante não surgiu, em Portugal, qualquer movimento reformador de cariz evangélico. Quanto aos que vieram de fora, foram facilmente naturalizados, isto é, desvirtuados e aproveitados para reforçar o modelo tridentino ou contra-reformista.

O que se passou com o impulso reformista evangélico do Vaticano II obedeceu à prática tradicional de assimilação: participação passiva dos bispos nos trabalhos do Concílio e aplicação superficial nas dioceses do país assente no pressuposto declarado que a Igreja portuguesa há muito punha em prática as ideias deste Concílio. O longo pontificado conservador de João Paulo II acabou por lhes dar razão.

Um parêntesis importante com uma advertência a não esquecer. O combate, que opôs católicos e protestantes e durou mais de dois séculos, marcou negativamente e profundamente tanto o catolicismo como o protestantismo tornando-os a ambos menos evangélicos.

Exemplos de alguns dos desvios protestantes: intolerância e lutas de morte entre versões do cristianismo protestante, desvarios doutrinais, exclusão do culto mariano e dos santos...

Hoje, em Portugal, o núcleo duro da Igreja Católica responde ao apelo do Papa Francisco fazendo mais do mesmo que foi feito no passado, admito que com alguma preocupação . Efectivamente a frequência das comunidades cristãs, tanto em meio rural como em meio urbano, tem diminuído drasticamente e vai-se restringindo aos idosos que apreciam este modelo de cristianismo porque lhes restitui os bons velhos tempos.Os esforços por transmitir a fé aos mais novos inova nos processos mas não altera os conteúdos, com que visceralmente os cristãos se identificam e que , parcialmente, são produtos das vicissitudes da história. A fé de um cristão de há mil anos é essencialmente a mesma mas a sua expressão, sempre necessária para que exista fé, vai mudando para continuar a ser a mesma.

Como católico praticante que sou estou convicto que a reforma evangélica adequada ao nosso tempo vai fazer-se. E que, tal como o Evangelho aconselha, começa por pequenos grupos de leigos, padres e bispos , vivendo do modo mais evangélico possível e ajudando, com muita humildade, outros a descobrirem ou redescobrirem o projecto de Jesus Cristo de humanização e divinização da terra. O céu será dado a todos, bons e menos bons, pelo Deus misericordioso em que acreditamos. Deus será tudo em todos, como diz S. Paulo.



Artur Lemos

quinta-feira, 15 de março de 2018


  Será por aí o Caminho?    Carta ao meu pároco (2)

                
            A propósito de cerimónias e de celebração lembro-me tantas vezes duma situação que se passou comigo e que não resisto a contá-la aqui.         Nos finais dos anos 60, penso que na semana da Páscoa de 68, uns amigos meus da paróquia em que eu estava, cristãos muito empenhados na vida da comunidade, membros ativos da Ação Católica, determinaram ir a Lourdes com a mãe, que fazia muito gosto nisso. Alinhei, com o meu carro; éramos oito.
            Fomos por Barcelona, visitámos Monserrate, fizemos caminho por Andorra e chegámos a Lourdes onde fomos peregrinos. Regressámos por Madrid. Era domingo. Onde ir à missa? Convidei os meus amigos a visitarmos um teólogo holandês, o padre Barth Reker meu amigo também, que nessa altura vivia em Madrid, impedido de regressar a Portugal. Na sua casa, num bairro modesto, sentados à roda duma mesinha da sala, conversámos sobre a nossa peregrinação, sobre o exílio do Barth, sobre coisas do nosso país e da nossa igreja, lemos os textos da missa desse dia, o Barth orientou a meditação sobre eles e celebrámos a eucaristia. Não houve paramentos, velas, cerimónias.
            Quando, já em casa e passados uns tempos, conversávamos sobre a nossa ida a Lourdes, o Ti Emídio, o mais velho dos irmãos da família, homem que falava muito pouco e por isso não era capaz de dizer não sempre que se lhe pedia ajuda e apoio, que apesar do seu silêncio tinha um carisma extraordinário para construir comunidade, o Ti Emídio disse: ”Gostei muito de tudo, do que visitámos e da nossa ida a Lourdes, mas o que mais fundo me tocou foi a missa em casa do Reker”.
            Não foram precisas cerimónias e cenários de culto para o Ti Emidio e nós todos percebermos que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”.
            Não afirmo que paramentos e alguns ritos não têm lugar na celebração. Têm, mas é assunto para outra altura-
                                                                                       António Correia

quinta-feira, 1 de março de 2018

Será por aí o caminho? Carta ao meu pároco (1)

Já me tinha apercebido do ambiente marcadamente ritualista das missas na paróquia:

  São velas acesas aqui e ali e num cortejo inicial;
 são paramentos antigos e rendas à moda antiga;
 são toques de campainha a anunciar o início da missa e consagração;
 são inclinações e genuflexões;
Nalguns lados já se fala de missa em latim, de costas para a assembleia, de promessa de cobertura de imagens na quaresma;
Comunhão na língua e de joelhos;
Lenço na cabeça das senhoras, etc. etc. etc.

É certo que tudo isto perturba muita gente, mas… será mesmo de se ficar perturbado? Se nos lembrarmos bem, este caminho já foi percorrido há não muito tempo.

Só que então foi percorrido numa caminhada em frente e hoje é numa marcha atrás. Toda esta tentativa de restauro de ritos que o tempo foi instalando, influenciados em grande parte pela imitação das cerimónias nas cortes de reis e gente importante e imitados pelos sacerdotes de todos os cultos, trouxe-me à ideia a imagem das touradas à antiga portuguesa; aquilo é um espetáculo em que trajes, música, gestos, figurantes… tudo, tem a ver com o que era a tourada no sec. XVIII.

A PALAVRA não tem aí lugar; quem lá vai é para ASSISTIR a um espetáculo em que não se é participante. Ali diz-se olé; na missa diz-se ámen. Mais participação não há. Quando acabou, vai-se dali para fora e não se pede que a tourada tenha influência na vida, tenha impacto com a nossa maneira de estar no mundo. As palavras “chave” na /da liturgia em tempos que vivemos, eram cerimónias, cerimonial, cerimoniário, mestre de cerimónias; passámos a ver a liturgia como celebração. Na liturgia cerimonial, o que é mais relevante é o espectáculo do conjunto de ritos, gestos, vestes, alfaias litúrgicas, coisas que, em boa verdade, pouco ou nada têm a ver com a vida. Na liturgia celebração é a Palavra e o rito Eucarístico que, se a celebração não for adulterada pela rotina, tudo a ver com a vida – aspirações, preocupações, sonhos, procura, alegria, sofrimento… da gente e do nosso mundo.

  António Correia

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Texto de António Correia Vocês são o sal da terra; se o sal perder o seu sabor não presta para mais nada senão para se deitar fora e ser pisado pelos homens. Mt. 5/13 O Patriarca de Lisboa foi, nestes dias, tão badalado por razão tão negativa. Ouvi a notícia e pensei logo e disse-o: que falta de senso! Veio-me à ideia a afirmação de Jesus:” Vós sois o sal da terra; se ele perder o sabor só presta para se deitar fora e ser pisado pelos homens”. Lembro-me do Chico sardinheiro, na minha aldeia, que percorria as povoações dos arredores, com duas canastras de peixe, sardinhas ou carapaus, conservado em sal. Quando acabava a venda deitava o sal para o caminho, era sempre de terra, ou para as valetas. Sempre imaginei que a palavra de Jesus “ser pisado pelos homens” se refere ao desinteresse e ao ridículo e não a perseguição. E de facto, a recomendação do bispo de Lisboa dá para rir, por se constatar quanto um homem que devia ser guia anda fora da vida. Mas também é motivo de tristeza para quem ainda tem o cristianismo, nomeadamente, neste caso, a Igreja Católica, como espaço das suas convicções. Ligou-me um amigo e antigo colega, que também foi padre, mal ouviu a notícia: " António, estou triste; não ouviste a notícia? Estou triste! Esta gente não se preocupa com as pessoas; só se preocupam com a moral de braguilha. Não são capazes de ir mais além. Não lhes diz nada o exemplo do Papa Francisco. …” É verdade; não compreendem nada. São sal que perdeu o sabor. Quando falam, é tão raro dizerem alguma coisa que venha “ao encontro da verdade cativa no coração das pessoas”, como diz S. Paulo em passagem que agora não consigo indicar. E fica-se tão vazio quando, no fundo, se está à espera de quem aponte caminhos de humanidade. Mas eles julgam que humanidade se opõe a religião. Será esse o pensar do Deus de Jesus Cristo? E no que se passa na oposição obcecada às atitudes, orientações e gestos do Papa Francisco? Ridícula também e chocante a imagem publicada do cardeal Burkel desfilando em Fátima com uma capa de seda vermelha, com 15 metros de comprimento! Para quê mais comentários, nomeadamente aos seguidores embevecidos, onde se evidencia um grupo de freiras vestidas a rigor e clérigos com os respetivos barretes eclesiásticos? É triste! E Burke é declarado opositor ao papa Frncisco. Como lê esta gente o que disse Jesus: “Tomai cuidado com os doutores da Lei, que sentem prazer em passear de túnicas compridas, e gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, dos primeiros lugares nas sinagogas e dos primeiros assentos nos banquetes; eles que devoram as casas das viúvas, simulando longas orações, terão um castigo mais severo.” Luc. 20/36-47 e paralelos nos sinóticos. A- Correia

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

COMO MOBILIZAR A CLASSE MÉDIA ALTA PORTUGUESA

Com a crise financeira e, depois, com as medidas de austeridade, a classe média alta sentiu que a sua situação não era tão estável como supunha. Alguns dos seus membros foram obrigados a emigrar ( trabalhadores pobres e trabalhadores da classe média baixa também emigraram e em maior número) e alguns viram também os seus depósitos bancários/investimentos ficar a descoberto, para além da diminuição dos rendimentos e pensões devidas pelo trabalho, extensiva, de resto, às outras classes sociais. A “geringonça” e a sua política de reposição de rendimentos permitiu-lhe não só recuperar rendimentos como ensaiar algumas movimentações com objectivos que vão para além do mero regresso ao passado. A classe média alta respirava, então, de alívio. Tudo não teria passado de um susto. Mas no verão de 2017,inopinadamente, aconteceu a tragédia dos incêndios que atingiu o país pobre. É isso que explica a lentidão e a relativa insensibilidade de reacção da classe média alta que, na minha opinião , tarda a tirar as devidas ilações da crise e da tragédia. Crise e tragédia são fruto das profundas fragilidades do país e não de forças externas, naturais ou humanas. Na minha opinião as conclusões a tirar pela classe média alta são as seguintes: . Se não se empenhar em mudanças substanciais no País, crises e tragédias ocorrerão regularmente no futuro e, provavelmente, com mais intensidade. . Por mais que a classe média alta multiplique e reforce as suas defesas não deixará de ser afectada significativamente por essas crises e tragédias.Nem a Europa nem qualquer tesouro (petróleo, lítio ...) ou benemérito a salvará. . E não assegurará dois dos pilares da sua força: liberdade de expressão e liberdade de empreender. Verá surgir, como no passado, “senhores disto tudo” que a reduzirão a um bando de serventuários e capatazes. Terá, pois, que sair do conforto da gestão e optimização dos privilégios adquiridos e enfrentar , com muita ambição, com muita determinação e com muita rapidez, os problemas realmente estruturais do nosso País: medíocre criação de riqueza, deficiente educação/instrução da população activa, desertificação do território e déficit demográfico. Além de centrar os seus melhores esforços nestes quatro projectos nacionais, terá que alterar alguns dos seus comportamentos. Eis alguns deles: . Estender a sua actividade à actividade empresarial de comercialização e produção de bens e serviços. Dentro da classe média alta a parte que se dedica à actividade empresarial entre nós, a burguesia, não é nem suficientemente numerosa, nem suficientemente independente do conforto do Estado, nem suficientemente esclarecida. . No âmbito da educação/instrução dos seus membros importará educá-los para o empreendedorismo e instruí-los sobretudo nas ciências, tecnologias, engenharias e matemática ( CTEM. Com relevância para a engenharia informática, a inteligência artificial e a robótica). . Outro comportamento a ter em conta prende-se com a poupança e com o destino a dar-lhe. Terá que poupar mais não cedendo à tentação do consumismo e não canalizando as poupanças para gastos sumptuários, para investimentos seguros mas pouco rentáveis ou para engrossar as rendas dos descendentes. . Deverá bater-se pela generalização a toda a sociedade do reconhecimento do mérito e pela eliminação das “cunhas” e da corrupção. . Não deverá tolerar entre os seus pares qualquer espécie de evasão fiscal e evitar, quanto possível, cosméticas contabilísticas e fiscais. . Deverá aceitar que o aumento substancial do PIB nacional se repercuta sobretudo na elevação dos rendimentos das outras classes sociais até se atingir um PIB per capita anual de 50.000/60.000 € mais equitativamente distribuído. . Nas iniciativas empresariais deverá privilegiar a cooperação dos trabalhadores à subordinação, o reconhecimento do mérito ao presencismo, a criatividade ao seguidismo, salários justos e motivadores ao salário minimamente aceitável pelo mercado. Até agora apresentámos razões à classe média alta para empenhar-se num processo de transformação profunda do país e de mudança de alguns dos seus hábitos . São os novos objectivos, os novos rumos. Para seguir, porém, por caminhos novos é necessária muita energia e a energia não brota da justeza dos objectivos ou dos rumos, mas das emoções, sentimentos e afectos. A classe média alta (e a sociedade portuguesa em geral) deve concentrar o essencial do seu fervor patriótico e europeísta (os dois completam-se) na reinvenção do País e da Comunidade europeia, secundarizando o futebol e o Guiness como expressão de patriotismo e cosmopolitismo. Tem também que revigorar a sua fé ( a fé é um sentimento que leva à acção) nos valores matriciais da casse média em geral e da classe média alta em particular: direitos humanos, democracia, liberdade, ciência e tecnologia, ecologia, empreendedorismo e criatividade, pondo de parte o culto da aparência e dos modernismos transitórios. Artur Lemos . arturlemosazevedo@gmail.com

A CLASSE MÉDIA ALTA É A CHAVE PARA A TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA DE QUE PORTUGAL NECESSITA

Portugal, apesar dos progressos notáveis realizados nas últimas quatro décadas, continua a ser um país de gente pobre (mais de 50 % da população luta diariamente pela mera sobrevivência), com uma população pouco instruída ( só 35% da população activa possui formação superior), com o número de portugueses a diminuir assustadoramente e a envelhecer e com um território a degradar-se a cada dia que passa. A gente de esquerda responsabiliza os super-ricos, os milionários e os capitalistas,pela actual situação do país e apela ao povo pobre para lutar pela derrota do capitalismo e pela instauração do socialismo. A gente de direita, por seu lado, entende que se a classe baixa trabalhar com mais diligência, não esbanjar o pouco de que dispõe e confiar no deus-mercado, há-de receber, a seu tempo, um país mais rico e mais generoso para com eles. A gente do centro crê que, neste novo contexto civilizacional de desenvolvimento exponencial do conhecimento e de globalização , é a classe média que possui a chave da mudança no quadro do capitalismo, através de dois instrumentos essenciais: mercado regulado para todos poderem contribuir para a produção de riqueza pro e Estado social para a distribuir equitativamente. Em certas circunstâncias peculiares das sociedades democráticas capitalistas forma-se, no seio da classe média , uma classe média alta que distribui pelos elementos que a compõem a parte maior da fatia da riqueza gerada pelo país, e torna muito lentas e superficiais as melhorias de desenvolvimento e de igualitarização de toda a sociedade. O caso dos médicos portugueses ilustra bem como um agrupamento de trabalhadores da área da saúde ascendeu a essa posição de classe média alta nas últimas quatro décadas. Segundo a Marktest, 15,4% da população portuguesa pertence à classe média alta que se caracteriza, como a classe média em geral, pelo nível particularmente elevado de três poderes que os seus membros detêm conjuntamente: poder económico, poder cultural e poder de influência. Suponho (não disponho de dados objectivos) que uma família que auferir rendimentos anuais entre 50.000 e 150.000 €, que tiver dois ou mais membros com licenciatura, mestrado ou doutoramento e estiver inserida numa teia de relações com pessoas do mesmo nível ( Ordem, Sindicato, Maçonaria, Opus Dei,Família tradicionalista...) pertence à classe média alta. Vou tentar agora discriminar quem me parece fazer parte, em Portugal, da classe média alta. Quadros superiores das Forças Armadas e de Segurança; Juízes e Magistrados, enquadrados pelos Sindicatos respectivos; Quadros Superiores e profissionais altamente especializados da Administração Pública; Deputados e Ex-deputados, membros e ex-membros do Governo; Professores do ensino superior e Investigadores; Professores do ensino básico e secundário. Os sindicatos dos professores do ensino básico e secundário conseguiram a proeza da igualdade de remunerações entre professores do ensino básico e secundário e, com o sistema de carreiras, atingir o patamar de rendimentos da classe média alta no fim da carreira e na aposentadoria. Pelo elevado número do seu efectivo e pela sua militância constituem, actualmente, uma força poderosíssima na sociedade portuguesa. Mais influentes do que os professores são, porém, os médicos que, à partida, atingem rendimentos da classe média alta, instrução superior de terceiro nível (na prática cerca de 7 anos) e uma coesão verdadeiramente corporativa. Para tal muito contribuiram a Ordem e os sindicatos respectivos, “o númerus clausus” no acesso ao ensino médico, a exclusividade do ensino médico atribuída às faculdades e hospitais públicos e o desinteresse pela promoção social dos enfermeiros, como eles trabalhadores especializados da saúde. Quadros superiores e profissionais altamente especializados das multinacionais e das grandes empresas portuguesas, sócios-gerentes e quadros superiores das empresas médias portuguesas; quadros superiores e técnicos altamente especializados das empresas de comunicação social; sócios dos ateliers de arquitectos; sócios dos gabinetes de consultoria; apesar de disporem de uma Ordem própria, só os sócios dos escritórios de advogados pertencem seguramente à classe média alta. Desta listagem, certamente incompleta, pode concluir-se, sem perigo de errar, que, em Portugal, a classe média alta está mais ligada ao aparelho de Estado do que ao sector privado empresarial. E isto quer dizer que a maioria dos membros da nossa classe média alta trabalha indirectamente na criação de riqueza. E os que trabalham directamente na criação de riqueza além de poucos, são muito avessos ao risco e pouco inovadores. Faltam ainda os quadros superiores dos partidos políticos que, com excepção talvez dos do P.C.P., pertencem à classe média alta. A influência deles na mediocridade do desenvolvimento e da desigualdade do país é importante. Não raramente a preocupação exagerada em conquistarem e manterem o poder político e em defenderem os seus interesses de classe leva-os a moderarem os seus impulsos reformistas. Há que reconhecer, entretanto, que o espaço de manobra da classe média alta no quadro do sistema capitalista que é o nosso e dum sistema capitalista mais interessado em aumentar a riqueza através da especulação financeira do que através da actividade produtiva, é bastante limitado. Se não se sujeitarem à voracidade dos donos do capital facilmente serão substituidos e os Estados que o não fizerem serão condenados à escravatura da dívida perpétua e à pobreza endémica. Em artigo subsequente tratarei do tema, deveras difícil, de como mobilizar a classe média alta para a transformação substancial e rápida de que o nosso país necessita, aproveitando o postigo (não a janela) de oportunidades de que ainda dispomos. Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com

Será por aí o caminho? Texto de António Correia

A Visão de sábado dia 27 de Janeiro trazia uma reportagem sobre a maneira de praticar o culto religioso (cristão?) de pessoas que se identificam como pertencendo à Fraternidade de S. Pio X. Têm da Liturgia a ideia de ser constituída por cerimónias à maneira dos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II; a missa deverá ser em latim, com o celebrante de costas para o povo, vestes/paramentos do clero à moda antiga, maneira de as mulheres se apresentarem, de todos estarem, comungarem… Enfim, a recusa do caminho que a Igreja Católica, com avanços e hesitações, tem vindo a fazer há cinquenta anos no campo da liturgia, para fazer dela celebração de toda a comunidade e não um conjunto de cerimónias, espetáculo religioso para assistentes submissos; a recusa determinada de andar o caminho por que o papa Francisco tenta guiar a Igreja Católica (só ela?) seguindo o exemplo e a palavra de Jesus, na maneira de encarar as pessoas, a vida, o mundo. Mas esta “guerra” não é só de hoje. Quem não se lembra do desentendimento conflituoso que teve lugar entre Monsenhor Pereira dos Reis e o Cardeal Cerejeira? Estava em causa a maneira diferente de entender questões teológicas, pastorais, litúrgicas, inclusivamente no que a paramentos dizia respeito. O cardeal, um conservador, Pereira dos Reis, um mestre que andava 40 anos à frente do seu tempo. Por isso foi afastado do seminário dos Olivais onde era o Reitor e mandado para conselheiro do embaixador de Portugal no Vaticano, onde nada teria a fazer nem a ensinar. Por isso se recolheu, passados dois anos, ao mosteiro de Singeverga. Não travou mais guerra. Soube que o tempo lhe viria a dar razão, que outros, hoje, tentam dizer que não tinha. Voltaremos ao assunto

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FÉ EM DEUS E LEITURA DA BÍBLIA

FÉ EM DEUS E LEITURA DA BÍBLIA As comunidades católicas da Diocese de Lisboa têm em curso, durante 2018, uma iniciativa pastoral de grande alcance esculpida no lema seguinte: “ Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé”. Integra vários projectos : leitura contínua da Bíblia, ler e rezar a Bíblia, leitura da Bíblia na catequese, Grupos de Jesus... E tudo isto apoiado no trabalho aturado e muito competente de tradução dos textos originais e de divulgação dessas traduções ao longo dos últimos trinta anos (Bíblia dos Capuchinhos e Bíblia Ecuménica). Duas sugestões que podem eventualmente contribuir para o maior sucesso desta iniciativa pastoral. A primeira tem a ver com a necessidade de interpretar a Bíblia a partir das duas dimensões essenciais da Boa Nova de Jesus Cristo. A primeira dimensão é sobre Deus. Deus é só amor, amor infinito, Pai misericordioso que perdoa sempre e não castiga,” Abba” que quer dizer “Papá”. A outra dimensão, que decorre da primeira, é o amor dos outros, amor universal, amor ilimitado, amor dos inimigos e amor que partilha os bens. O Deus castigador, ciumento, justiceiro ( a justiça é só o limiar mínimo do amor), violento e discriminador que surge em não poucos textos do Antigo Testamento não se identifica seguramente com o Deus de Jesus Cristo, o Deus que ele revelou. Na leitura e oração públicas (liturgia) seria bem melhor que fossem suprimidas essas passagens como, de resto, faz o Evangelista Lucas quando, ao citar o Profeta Isaías suprime “ o dia da vingança da parte do nosso Deus”. Ver Lc 4,.18-19. Quanto ao amor aos outros, a expressão “amor ao próximo” provem do judaísmo e Cristo rejeitou-a ( Parábola do bom samaritano). Apesar disso generalizou~se nos círculos cristãos. Restringe efectivamente os destinatários do amor cristão aos que estão próximos de quem ama, mesmo quando se interpreta como estabelecendo prioridades. O verdadeiro discípulo de Cristo ama igualmente os que não conhece, os inimigos, os estrangeiros, todos, os que estão próximos e os que estão longe, qualquer que seja o tipo e a dimensão da distância. A fórmula “ Ama os outros como a ti mesmo” estabelece uma medida e o amor cristão, à partida, é sem medida. A chamada “lei de talião”, ama os outros tal como gostarias que os outros te amassem a ti, limita o amor cristão que, segundo Jesus, não tem limites. “ Amai -vos uns aos outros como eu vos amei”, isto é, com um amor humanamento divino. No meu tempo de criança, isto é, há setenta anos e na minha aldeia do Minho, frequentei a então chamada “doutrina” que consistia na apresentação/explicação e na aprendizagem/memorização dos Mandamentos da Lei de Deus, dos Sacramentos, do Credo , das Obras de misericórdia...As crianças dos meios mais ilustrados tinham acesso à “Bíblia das Escolas”, um resumo das melhores histórias e mensagens da Sagrada Escritura. Veio depois a fase da “catequese”, centrada na história da salvação e na liturgia, esta encarada como concretização da salvação. Então já era catequista e quando questionava os meus catequizandos e eles não sabiam responder surgia quase sempre um ou dois que , para salvar a honra da turma, respondia invariavelmente: Adão e Eva ( o início da história da salvação) ou Missa ( o coração da liturgia). É preciso dar mais um passo em frente. Salvamo-nos, isto é, somos felizes aqui e agora e para sempre, através do amor e não só nem principalmente pela doutrina ou pelos ritos, por mais sagrados que sejam, ou pela oração individual ou colectiva. Os melhores catecismos e catequistas seguem o plano do ano litúrgico mas geralmente interpretam as principais festas com uma perspectiva quase exclusivamente doutrinária ou cultual. Ora qualquer celebração da igreja constitui uma âncora para o amor concreto de Deus e dos irmãos. No início do ano litúrgico é o advento/natal que celebra o amor criador e salvador de Deus, Pai amoroso de quem somos filhos; segue a Páscoa que festeja o amor libertador de todos os seus filhos; vem, depois , o Pentecostes que difunde o fogo do amor fraterno que renova a face da terra. Também aqui, o importante mesmo é encaminhar as crianças para o encontro com Jesus Cristo e com a sua mensagem fundamental: fé/amor a Deus e fé/amor aos irmãos. Artur Lemos

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018


QUATRO PROJECTOS NACIONAIS PARA OS PRÓXIMOS DEZ ANOS
Milagre Económico, Duplicação do número de licenciados, Reforma da gestão da floresta e da água e Rejuvenescimento da população
Os incêndios e a seca atingiram-nos de forma trágica e, depois das lágrimas e dos primeiros socorros, há que encarar esses factos como alertas para construirmos um país muito melhor.
Os incêndios e a seca fustigaram os pobres, os idosos e a mãe terra.
Como país e, nas últimas décadas, temo-nos focalizado nos problemas de curto prazo, adiando a solução dos verdadeiros problemas estruturais do país que são: a extrema debilidade económica, o défice educativo e cultural persistente, o abandono a que votamos este nosso jardim à beira mar plantado e a indiferença à desertificação humana que , pela calada, nos ameaça como povo.
As nossas respostas têm que ser muito ambiciosas, quer no período curto de implementação de dez anos, quer na abrangência da maior parte da população, quer na sua grandiosidade objectiva.
Milagre económico. A meta a alcançar em dez anos é, nem mais nem menos, duplicar o actual Produto Interno Bruto per capita, isto é, passar dos 22.000 anuais para os 44.000 €.
Só com uma aposta desta grandeza, um autêntico milagre, será possível melhorar substancialmente a situação económica de 50% da população activa que, actualmente, aufere rendimentos do trabalho abaixo dos 10.000 € anuais e reduzir saudavelmente o desemprego para os 4% da população activa. E acudir dignamente aos 20% de portugueses que vivem em pobreza extrema.
É possível dar tamanho salto? A República da Irlanda deu-o entre 1995 e 2015, passando de 15000€ anuais para 55.000. Portugal , país pequeno e periférico e membro da U.E. como a Irlanda, evoluiu nesses mesmos 20 anos de 12.000 para 22.000. Faltou-nos ambição e, sobretudo, competência
Por isso é que é imprescindível duplicar o número de portugueses da população activa com o ensino secundário completo ou com licenciatur subindo de 35% para 70% que é o valor médio dos países mais desenvolvidos da U.E..
A economia requer cada vez mais conhecimento e cada vez menos força física e habilidade manual. Por outro lado a educação e a instrução são absolutamente indispensáveis para a realização pessoal, para a democratização da sociedade e para o o bem-estar ambiental
Os incêndios e a seca, para além de colocarem a descoberto as principais debilidades do Estado e da sociedad tornaram particularmente urgente a gestão da água e da floresta. A partir de agora não podemos limitar-nos a protegermo-nos dos incêndios. Urge trabalhar por um país/território mais saudavel e mais rentável.
O projecto de rejuvenescimento da população é o mais difícil de adoptar e de implementar porque implica a inversão de atitudes individuais de procriação e de educação e os frutos só serão visíveis para lá dos dez anos. Como o percurso é especialmente longo é necessário começar já.
E o início destes projectos nacionais tem que partir da sociedade civil porque os partidos políticos, os sindicatos e as ordens profissionais têm estado quase exclusivamente focalizados nos interesses dos grupos que representam. As eleições para a Assembleia da República de 2019 serão a ocasião indicada para a sociedade civil os mandatar para liderarem, como lhes compete, a implementação destes projectos nacionais.
È claro que a sociedade civil não se mobiliza espontaneamente, tanto mais que o consumismo e o divertimento a que está subjugada , não lhe deixam espaço para estas causas,
Capaz de mobilizar a sociedade civil para a adopção destes desígnios nacionais só o actual Presidente da República porque foi eleito directamente pelos portugueses sem o apoio dos partidos políticos, porque acompanhou de perto a tragédia do ultimo verão e porque é o presidente dos afectos. São estes, os afectos e os sentimentos em geral, os únicos capazes de mobilizar verdadeiramente os portugueses para “reinventar o país” como assinalou o Presidente na sua mensagem de ano novo.

Artur Lemos