terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
COMO MOBILIZAR A CLASSE MÉDIA ALTA PORTUGUESA
Com a crise financeira e, depois, com as medidas de austeridade, a classe média alta sentiu que a sua situação não era tão estável como supunha. Alguns dos seus membros foram obrigados a emigrar ( trabalhadores pobres e trabalhadores da classe média baixa também emigraram e em maior número) e alguns viram também os seus depósitos bancários/investimentos ficar a descoberto, para além da diminuição dos rendimentos e pensões devidas pelo trabalho, extensiva, de resto, às outras classes sociais.
A “geringonça” e a sua política de reposição de rendimentos permitiu-lhe não só recuperar rendimentos como ensaiar algumas movimentações com objectivos que vão para além do mero regresso ao passado. A classe média alta respirava, então, de alívio. Tudo não teria passado de um susto.
Mas no verão de 2017,inopinadamente, aconteceu a tragédia dos incêndios que atingiu o país pobre. É isso que explica a lentidão e a relativa insensibilidade de reacção da classe média alta que, na minha opinião , tarda a tirar as devidas ilações da crise e da tragédia. Crise e tragédia são fruto das profundas fragilidades do país e não de forças externas, naturais ou humanas.
Na minha opinião as conclusões a tirar pela classe média alta são as seguintes:
. Se não se empenhar em mudanças substanciais no País, crises e tragédias ocorrerão regularmente no futuro e, provavelmente, com mais intensidade.
. Por mais que a classe média alta multiplique e reforce as suas defesas não deixará de ser afectada significativamente por essas crises e tragédias.Nem a Europa nem qualquer tesouro (petróleo, lítio ...) ou benemérito a salvará.
. E não assegurará dois dos pilares da sua força: liberdade de expressão e liberdade de empreender. Verá surgir, como no passado, “senhores disto tudo” que a reduzirão a um bando de serventuários e capatazes.
Terá, pois, que sair do conforto da gestão e optimização dos privilégios adquiridos e enfrentar , com muita ambição, com muita determinação e com muita rapidez, os problemas realmente estruturais do nosso País: medíocre criação de riqueza, deficiente educação/instrução da população activa, desertificação do território e déficit demográfico.
Além de centrar os seus melhores esforços nestes quatro projectos nacionais, terá que alterar alguns dos seus comportamentos. Eis alguns deles:
. Estender a sua actividade à actividade empresarial de comercialização e produção de bens e serviços. Dentro da classe média alta a parte que se dedica à actividade empresarial entre nós, a burguesia, não é nem suficientemente numerosa, nem suficientemente independente do conforto do Estado, nem suficientemente esclarecida.
. No âmbito da educação/instrução dos seus membros importará educá-los para o empreendedorismo e instruí-los sobretudo nas ciências, tecnologias, engenharias e matemática ( CTEM. Com relevância para a engenharia informática, a inteligência artificial e a robótica).
. Outro comportamento a ter em conta prende-se com a poupança e com o destino a dar-lhe. Terá que poupar mais não cedendo à tentação do consumismo e não canalizando as poupanças para gastos sumptuários, para investimentos seguros mas pouco rentáveis ou para engrossar as rendas dos descendentes.
. Deverá bater-se pela generalização a toda a sociedade do reconhecimento do mérito e pela eliminação das “cunhas” e da corrupção.
. Não deverá tolerar entre os seus pares qualquer espécie de evasão fiscal e evitar, quanto possível, cosméticas contabilísticas e fiscais.
. Deverá aceitar que o aumento substancial do PIB nacional se repercuta sobretudo na elevação dos rendimentos das outras classes sociais até se atingir um PIB per capita anual de 50.000/60.000 € mais equitativamente distribuído.
. Nas iniciativas empresariais deverá privilegiar a cooperação dos trabalhadores à subordinação, o reconhecimento do mérito ao presencismo, a criatividade ao seguidismo, salários justos e motivadores ao salário minimamente aceitável pelo mercado.
Até agora apresentámos razões à classe média alta para empenhar-se num processo de transformação profunda do país e de mudança de alguns dos seus hábitos . São os novos objectivos, os novos rumos.
Para seguir, porém, por caminhos novos é necessária muita energia e a energia não brota da justeza dos objectivos ou dos rumos, mas das emoções, sentimentos e afectos.
A classe média alta (e a sociedade portuguesa em geral) deve concentrar o essencial do seu fervor patriótico e europeísta (os dois completam-se) na reinvenção do País e da Comunidade europeia, secundarizando o futebol e o Guiness como expressão de patriotismo e cosmopolitismo.
Tem também que revigorar a sua fé ( a fé é um sentimento que leva à acção) nos valores matriciais da casse média em geral e da classe média alta em particular: direitos humanos, democracia, liberdade, ciência e tecnologia, ecologia, empreendedorismo e criatividade, pondo de parte o culto da aparência e dos modernismos transitórios.
Artur Lemos . arturlemosazevedo@gmail.com
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