terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
Texto de António Correia
Vocês são o sal da terra; se o sal perder o seu sabor não presta para mais nada senão para se deitar fora e ser pisado pelos homens. Mt. 5/13
O Patriarca de Lisboa foi, nestes dias, tão badalado por razão tão negativa.
Ouvi a notícia e pensei logo e disse-o: que falta de senso!
Veio-me à ideia a afirmação de Jesus:” Vós sois o sal da terra; se ele perder o sabor só presta para se deitar fora e ser pisado pelos homens”.
Lembro-me do Chico sardinheiro, na minha aldeia, que percorria as povoações dos arredores, com duas canastras de peixe, sardinhas ou carapaus, conservado em sal. Quando acabava a venda deitava o sal para o caminho, era sempre de terra, ou para as valetas. Sempre imaginei que a palavra de Jesus “ser pisado pelos homens” se refere ao desinteresse e ao ridículo e não a perseguição. E de facto, a recomendação do bispo de Lisboa dá para rir, por se constatar quanto um homem que devia ser guia anda fora da vida.
Mas também é motivo de tristeza para quem ainda tem o cristianismo, nomeadamente, neste caso, a Igreja Católica, como espaço das suas convicções. Ligou-me um amigo e antigo colega, que também foi padre, mal ouviu a notícia: " António, estou triste; não ouviste a notícia? Estou triste! Esta gente não se preocupa com as pessoas; só se preocupam com a moral de braguilha. Não são capazes de ir mais além. Não lhes diz nada o exemplo do Papa Francisco. …”
É verdade; não compreendem nada. São sal que perdeu o sabor. Quando falam, é tão raro dizerem alguma coisa que venha “ao encontro da verdade cativa no coração das pessoas”, como diz S. Paulo em passagem que agora não consigo indicar. E fica-se tão vazio quando, no fundo, se está à espera de quem aponte caminhos de humanidade. Mas eles julgam que humanidade se opõe a religião. Será esse o pensar do Deus de Jesus Cristo?
E no que se passa na oposição obcecada às atitudes, orientações e gestos do Papa Francisco? Ridícula também e chocante a imagem publicada do cardeal Burkel desfilando em Fátima com uma capa de seda vermelha, com 15 metros de comprimento! Para quê mais comentários, nomeadamente aos seguidores embevecidos, onde se evidencia um grupo de freiras vestidas a rigor e clérigos com os respetivos barretes eclesiásticos? É triste! E Burke é declarado opositor ao papa Frncisco.
Como lê esta gente o que disse Jesus: “Tomai cuidado com os doutores da Lei, que sentem prazer em passear de túnicas compridas, e gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, dos primeiros lugares nas sinagogas e dos primeiros assentos nos banquetes; eles que devoram as casas das viúvas, simulando longas orações, terão um castigo mais severo.” Luc. 20/36-47 e paralelos nos sinóticos.
A- Correia
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
COMO MOBILIZAR A CLASSE MÉDIA ALTA PORTUGUESA
Com a crise financeira e, depois, com as medidas de austeridade, a classe média alta sentiu que a sua situação não era tão estável como supunha. Alguns dos seus membros foram obrigados a emigrar ( trabalhadores pobres e trabalhadores da classe média baixa também emigraram e em maior número) e alguns viram também os seus depósitos bancários/investimentos ficar a descoberto, para além da diminuição dos rendimentos e pensões devidas pelo trabalho, extensiva, de resto, às outras classes sociais.
A “geringonça” e a sua política de reposição de rendimentos permitiu-lhe não só recuperar rendimentos como ensaiar algumas movimentações com objectivos que vão para além do mero regresso ao passado. A classe média alta respirava, então, de alívio. Tudo não teria passado de um susto.
Mas no verão de 2017,inopinadamente, aconteceu a tragédia dos incêndios que atingiu o país pobre. É isso que explica a lentidão e a relativa insensibilidade de reacção da classe média alta que, na minha opinião , tarda a tirar as devidas ilações da crise e da tragédia. Crise e tragédia são fruto das profundas fragilidades do país e não de forças externas, naturais ou humanas.
Na minha opinião as conclusões a tirar pela classe média alta são as seguintes:
. Se não se empenhar em mudanças substanciais no País, crises e tragédias ocorrerão regularmente no futuro e, provavelmente, com mais intensidade.
. Por mais que a classe média alta multiplique e reforce as suas defesas não deixará de ser afectada significativamente por essas crises e tragédias.Nem a Europa nem qualquer tesouro (petróleo, lítio ...) ou benemérito a salvará.
. E não assegurará dois dos pilares da sua força: liberdade de expressão e liberdade de empreender. Verá surgir, como no passado, “senhores disto tudo” que a reduzirão a um bando de serventuários e capatazes.
Terá, pois, que sair do conforto da gestão e optimização dos privilégios adquiridos e enfrentar , com muita ambição, com muita determinação e com muita rapidez, os problemas realmente estruturais do nosso País: medíocre criação de riqueza, deficiente educação/instrução da população activa, desertificação do território e déficit demográfico.
Além de centrar os seus melhores esforços nestes quatro projectos nacionais, terá que alterar alguns dos seus comportamentos. Eis alguns deles:
. Estender a sua actividade à actividade empresarial de comercialização e produção de bens e serviços. Dentro da classe média alta a parte que se dedica à actividade empresarial entre nós, a burguesia, não é nem suficientemente numerosa, nem suficientemente independente do conforto do Estado, nem suficientemente esclarecida.
. No âmbito da educação/instrução dos seus membros importará educá-los para o empreendedorismo e instruí-los sobretudo nas ciências, tecnologias, engenharias e matemática ( CTEM. Com relevância para a engenharia informática, a inteligência artificial e a robótica).
. Outro comportamento a ter em conta prende-se com a poupança e com o destino a dar-lhe. Terá que poupar mais não cedendo à tentação do consumismo e não canalizando as poupanças para gastos sumptuários, para investimentos seguros mas pouco rentáveis ou para engrossar as rendas dos descendentes.
. Deverá bater-se pela generalização a toda a sociedade do reconhecimento do mérito e pela eliminação das “cunhas” e da corrupção.
. Não deverá tolerar entre os seus pares qualquer espécie de evasão fiscal e evitar, quanto possível, cosméticas contabilísticas e fiscais.
. Deverá aceitar que o aumento substancial do PIB nacional se repercuta sobretudo na elevação dos rendimentos das outras classes sociais até se atingir um PIB per capita anual de 50.000/60.000 € mais equitativamente distribuído.
. Nas iniciativas empresariais deverá privilegiar a cooperação dos trabalhadores à subordinação, o reconhecimento do mérito ao presencismo, a criatividade ao seguidismo, salários justos e motivadores ao salário minimamente aceitável pelo mercado.
Até agora apresentámos razões à classe média alta para empenhar-se num processo de transformação profunda do país e de mudança de alguns dos seus hábitos . São os novos objectivos, os novos rumos.
Para seguir, porém, por caminhos novos é necessária muita energia e a energia não brota da justeza dos objectivos ou dos rumos, mas das emoções, sentimentos e afectos.
A classe média alta (e a sociedade portuguesa em geral) deve concentrar o essencial do seu fervor patriótico e europeísta (os dois completam-se) na reinvenção do País e da Comunidade europeia, secundarizando o futebol e o Guiness como expressão de patriotismo e cosmopolitismo.
Tem também que revigorar a sua fé ( a fé é um sentimento que leva à acção) nos valores matriciais da casse média em geral e da classe média alta em particular: direitos humanos, democracia, liberdade, ciência e tecnologia, ecologia, empreendedorismo e criatividade, pondo de parte o culto da aparência e dos modernismos transitórios.
Artur Lemos . arturlemosazevedo@gmail.com
A CLASSE MÉDIA ALTA É A CHAVE PARA A TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA DE QUE PORTUGAL NECESSITA
Portugal, apesar dos progressos notáveis realizados nas últimas quatro décadas, continua a ser um país de gente pobre (mais de 50 % da população luta diariamente pela mera sobrevivência), com uma população pouco instruída ( só 35% da população activa possui formação superior), com o número de portugueses a diminuir assustadoramente e a envelhecer e com um território a degradar-se a cada dia que passa.
A gente de esquerda responsabiliza os super-ricos, os milionários e os capitalistas,pela actual situação do país e apela ao povo pobre para lutar pela derrota do capitalismo e pela instauração do socialismo.
A gente de direita, por seu lado, entende que se a classe baixa trabalhar com mais diligência, não esbanjar o pouco de que dispõe e confiar no deus-mercado, há-de receber, a seu tempo, um país mais rico e mais generoso para com eles.
A gente do centro crê que, neste novo contexto civilizacional de desenvolvimento exponencial do conhecimento e de globalização , é a classe média que possui a chave da mudança no quadro do capitalismo, através de dois instrumentos essenciais: mercado regulado para todos poderem contribuir para a produção de riqueza pro e Estado social para a distribuir equitativamente.
Em certas circunstâncias peculiares das sociedades democráticas capitalistas forma-se, no seio da classe média , uma classe média alta que distribui pelos elementos que a compõem a parte maior da fatia da riqueza gerada pelo país, e torna muito lentas e superficiais as melhorias de desenvolvimento e de igualitarização de toda a sociedade.
O caso dos médicos portugueses ilustra bem como um agrupamento de trabalhadores da área da saúde ascendeu a essa posição de classe média alta nas últimas quatro décadas.
Segundo a Marktest, 15,4% da população portuguesa pertence à classe média alta que se caracteriza, como a classe média em geral, pelo nível particularmente elevado de três poderes que os seus membros detêm conjuntamente: poder económico, poder cultural e poder de influência.
Suponho (não disponho de dados objectivos) que uma família que auferir rendimentos anuais entre 50.000 e 150.000 €, que tiver dois ou mais membros com licenciatura, mestrado ou doutoramento e estiver inserida numa teia de relações com pessoas do mesmo nível ( Ordem, Sindicato, Maçonaria, Opus Dei,Família tradicionalista...) pertence à classe média alta.
Vou tentar agora discriminar quem me parece fazer parte, em Portugal, da classe média alta. Quadros superiores das Forças Armadas e de Segurança; Juízes e Magistrados, enquadrados pelos Sindicatos respectivos; Quadros Superiores e profissionais altamente especializados da Administração Pública; Deputados e Ex-deputados, membros e ex-membros do Governo; Professores do ensino superior e Investigadores; Professores do ensino básico e secundário.
Os sindicatos dos professores do ensino básico e secundário conseguiram a proeza da igualdade de remunerações entre professores do ensino básico e secundário e, com o sistema de carreiras, atingir o patamar de rendimentos da classe média alta no fim da carreira e na aposentadoria. Pelo elevado número do seu efectivo e pela sua militância constituem, actualmente, uma força poderosíssima na sociedade portuguesa.
Mais influentes do que os professores são, porém, os médicos que, à partida, atingem rendimentos da classe média alta, instrução superior de terceiro nível (na prática cerca de 7 anos) e uma coesão verdadeiramente corporativa. Para tal muito contribuiram a Ordem e os sindicatos respectivos, “o númerus clausus” no acesso ao ensino médico, a exclusividade do ensino médico atribuída às faculdades e hospitais públicos e o desinteresse pela promoção social dos enfermeiros, como eles trabalhadores especializados da saúde.
Quadros superiores e profissionais altamente especializados das multinacionais e das grandes empresas portuguesas, sócios-gerentes e quadros superiores das empresas médias portuguesas; quadros superiores e técnicos altamente especializados das empresas de comunicação social; sócios dos ateliers de arquitectos; sócios dos gabinetes de consultoria; apesar de disporem de uma Ordem própria, só os sócios
dos escritórios de advogados pertencem seguramente à classe média alta.
Desta listagem, certamente incompleta, pode concluir-se, sem perigo de errar, que, em Portugal, a classe média alta está mais ligada ao aparelho de Estado do que ao sector privado empresarial. E isto quer dizer que a maioria dos membros da nossa classe média alta trabalha indirectamente na criação de riqueza. E os que trabalham directamente na criação de riqueza além de poucos, são muito avessos ao risco e pouco inovadores.
Faltam ainda os quadros superiores dos partidos políticos que, com excepção talvez dos do P.C.P., pertencem à classe média alta. A influência deles na mediocridade do desenvolvimento e da desigualdade do país é importante. Não raramente a preocupação exagerada em conquistarem e manterem o poder político e em defenderem os seus interesses de classe leva-os a moderarem os seus impulsos reformistas.
Há que reconhecer, entretanto, que o espaço de manobra da classe média alta no quadro do sistema capitalista que é o nosso e dum sistema capitalista mais interessado em aumentar a riqueza através da especulação financeira do que através da actividade produtiva, é bastante limitado. Se não se sujeitarem à voracidade dos donos do capital facilmente serão substituidos e os Estados que o não fizerem serão condenados à escravatura da dívida perpétua e à pobreza endémica.
Em artigo subsequente tratarei do tema, deveras difícil, de como mobilizar a classe média alta para a transformação substancial e rápida de que o nosso país necessita, aproveitando o postigo (não a janela) de oportunidades de que ainda dispomos.
Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com
Será por aí o caminho? Texto de António Correia
A Visão de sábado dia 27 de Janeiro trazia uma reportagem sobre a maneira de praticar o culto religioso (cristão?) de pessoas que se identificam como pertencendo à Fraternidade de S. Pio X. Têm da Liturgia a ideia de ser constituída por cerimónias à maneira dos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II; a missa deverá ser em latim, com o celebrante de costas para o povo, vestes/paramentos do clero à moda antiga, maneira de as mulheres se apresentarem, de todos estarem, comungarem…
Enfim, a recusa do caminho que a Igreja Católica, com avanços e hesitações, tem vindo a fazer há cinquenta anos no campo da liturgia, para fazer dela celebração de toda a comunidade e não um conjunto de cerimónias, espetáculo religioso para assistentes submissos; a recusa determinada de andar o caminho por que o papa Francisco tenta guiar a Igreja Católica (só ela?) seguindo o exemplo e a palavra de Jesus, na maneira de encarar as pessoas, a vida, o mundo.
Mas esta “guerra” não é só de hoje. Quem não se lembra do desentendimento conflituoso que teve lugar entre Monsenhor Pereira dos Reis e o Cardeal Cerejeira? Estava em causa a maneira diferente de entender questões teológicas, pastorais, litúrgicas, inclusivamente no que a paramentos dizia respeito. O cardeal, um conservador, Pereira dos Reis, um mestre que andava 40 anos à frente do seu tempo. Por isso foi afastado do seminário dos Olivais onde era o Reitor e mandado para conselheiro do embaixador de Portugal no Vaticano, onde nada teria a fazer nem a ensinar. Por isso se recolheu, passados dois anos, ao mosteiro de Singeverga.
Não travou mais guerra. Soube que o tempo lhe viria a dar razão, que outros, hoje, tentam dizer que não tinha.
Voltaremos ao assunto
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