terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
A CLASSE MÉDIA ALTA É A CHAVE PARA A TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA DE QUE PORTUGAL NECESSITA
Portugal, apesar dos progressos notáveis realizados nas últimas quatro décadas, continua a ser um país de gente pobre (mais de 50 % da população luta diariamente pela mera sobrevivência), com uma população pouco instruída ( só 35% da população activa possui formação superior), com o número de portugueses a diminuir assustadoramente e a envelhecer e com um território a degradar-se a cada dia que passa.
A gente de esquerda responsabiliza os super-ricos, os milionários e os capitalistas,pela actual situação do país e apela ao povo pobre para lutar pela derrota do capitalismo e pela instauração do socialismo.
A gente de direita, por seu lado, entende que se a classe baixa trabalhar com mais diligência, não esbanjar o pouco de que dispõe e confiar no deus-mercado, há-de receber, a seu tempo, um país mais rico e mais generoso para com eles.
A gente do centro crê que, neste novo contexto civilizacional de desenvolvimento exponencial do conhecimento e de globalização , é a classe média que possui a chave da mudança no quadro do capitalismo, através de dois instrumentos essenciais: mercado regulado para todos poderem contribuir para a produção de riqueza pro e Estado social para a distribuir equitativamente.
Em certas circunstâncias peculiares das sociedades democráticas capitalistas forma-se, no seio da classe média , uma classe média alta que distribui pelos elementos que a compõem a parte maior da fatia da riqueza gerada pelo país, e torna muito lentas e superficiais as melhorias de desenvolvimento e de igualitarização de toda a sociedade.
O caso dos médicos portugueses ilustra bem como um agrupamento de trabalhadores da área da saúde ascendeu a essa posição de classe média alta nas últimas quatro décadas.
Segundo a Marktest, 15,4% da população portuguesa pertence à classe média alta que se caracteriza, como a classe média em geral, pelo nível particularmente elevado de três poderes que os seus membros detêm conjuntamente: poder económico, poder cultural e poder de influência.
Suponho (não disponho de dados objectivos) que uma família que auferir rendimentos anuais entre 50.000 e 150.000 €, que tiver dois ou mais membros com licenciatura, mestrado ou doutoramento e estiver inserida numa teia de relações com pessoas do mesmo nível ( Ordem, Sindicato, Maçonaria, Opus Dei,Família tradicionalista...) pertence à classe média alta.
Vou tentar agora discriminar quem me parece fazer parte, em Portugal, da classe média alta. Quadros superiores das Forças Armadas e de Segurança; Juízes e Magistrados, enquadrados pelos Sindicatos respectivos; Quadros Superiores e profissionais altamente especializados da Administração Pública; Deputados e Ex-deputados, membros e ex-membros do Governo; Professores do ensino superior e Investigadores; Professores do ensino básico e secundário.
Os sindicatos dos professores do ensino básico e secundário conseguiram a proeza da igualdade de remunerações entre professores do ensino básico e secundário e, com o sistema de carreiras, atingir o patamar de rendimentos da classe média alta no fim da carreira e na aposentadoria. Pelo elevado número do seu efectivo e pela sua militância constituem, actualmente, uma força poderosíssima na sociedade portuguesa.
Mais influentes do que os professores são, porém, os médicos que, à partida, atingem rendimentos da classe média alta, instrução superior de terceiro nível (na prática cerca de 7 anos) e uma coesão verdadeiramente corporativa. Para tal muito contribuiram a Ordem e os sindicatos respectivos, “o númerus clausus” no acesso ao ensino médico, a exclusividade do ensino médico atribuída às faculdades e hospitais públicos e o desinteresse pela promoção social dos enfermeiros, como eles trabalhadores especializados da saúde.
Quadros superiores e profissionais altamente especializados das multinacionais e das grandes empresas portuguesas, sócios-gerentes e quadros superiores das empresas médias portuguesas; quadros superiores e técnicos altamente especializados das empresas de comunicação social; sócios dos ateliers de arquitectos; sócios dos gabinetes de consultoria; apesar de disporem de uma Ordem própria, só os sócios
dos escritórios de advogados pertencem seguramente à classe média alta.
Desta listagem, certamente incompleta, pode concluir-se, sem perigo de errar, que, em Portugal, a classe média alta está mais ligada ao aparelho de Estado do que ao sector privado empresarial. E isto quer dizer que a maioria dos membros da nossa classe média alta trabalha indirectamente na criação de riqueza. E os que trabalham directamente na criação de riqueza além de poucos, são muito avessos ao risco e pouco inovadores.
Faltam ainda os quadros superiores dos partidos políticos que, com excepção talvez dos do P.C.P., pertencem à classe média alta. A influência deles na mediocridade do desenvolvimento e da desigualdade do país é importante. Não raramente a preocupação exagerada em conquistarem e manterem o poder político e em defenderem os seus interesses de classe leva-os a moderarem os seus impulsos reformistas.
Há que reconhecer, entretanto, que o espaço de manobra da classe média alta no quadro do sistema capitalista que é o nosso e dum sistema capitalista mais interessado em aumentar a riqueza através da especulação financeira do que através da actividade produtiva, é bastante limitado. Se não se sujeitarem à voracidade dos donos do capital facilmente serão substituidos e os Estados que o não fizerem serão condenados à escravatura da dívida perpétua e à pobreza endémica.
Em artigo subsequente tratarei do tema, deveras difícil, de como mobilizar a classe média alta para a transformação substancial e rápida de que o nosso país necessita, aproveitando o postigo (não a janela) de oportunidades de que ainda dispomos.
Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com
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