CAMINHOS
DE PROGRESSO PARA A CLASSE MÉDIA BAIXA
A
classe média, em Portugal, corresponde a metade da população. A
outra metade é constituída por pobres dependentes dos apoios da
comunidade (20%) e por trabalhadores pobres, a maior parte deles do
sector industrial e agrícola (30%).
Na
classe média há que distinguir, porém, dois segmentos, a classe
média alta e a classe média baixa. Aquela aufere rendimentos acima
dos 50.000 € anuais e exerce grande influência sobre a governação
do País através de redes associativas e familiares e da sua forte
representação no aparelho de Estado. É a classe dirigente e
representará 15% da população. Os capitalistas são pouquíssimos
mas com grande poder económico e encontram-se num patamar
inacessível à classe média alta.Daí que a grande preocupação
desta classe seja distanciar-se da classe média baixa.
A
classe média baixa situa-se quase exclusivamente nos serviços (
trabalhadores de colarinhos brancos) e procura demarcar-se dos
trabalhadores da indústria e da agricultura mais pelo estilo de vida
( horário de trabalho de 35 horas, viatura familiar, férias na
praia, consumismo...) do que pelos rendimentos. Em muitos casos
ganham tanto ou menos que os trabalhadores da indústria mas
consideram-se elementos da classe média e, em geral, não se mostram
muito compreensivos com as actividades e as lutas dos proletários da
indústria e da agricultura.
A
crise e o programa de austeridade subsequente com a consequente
redução de rendimentos vieram pôr a descoberto a bolha da dívida
das famílias da classe média baixa. A dívida das famílias atinge
actualmente 100% do PIB. Foi a dívida que lhes permitiu viver
durante alguns anos a ilusão de pertencerem à classe média real,
ilusão certamente legítima e compreensível mas nem por isso menos
fictícia.
Uma
outra característica da classe média baixa nacional tem a ver com
a sua débil proactividade e sentido do colectivo. A maior parte dos
elementos que dela fazem parte entregam-se à inveja, à lamúria, à
subserviência aos pequenos poderes ou acomodam-se tranquilamente ao
poucochinho mas segurinho. Os sectores profissionais mais dinâmicos,
que os há, procuram juntar-se à classe média alta.
A
situação actual da classe média baixa poderá melhorar se:
- Investir mais na formação geral e profissional. A educação/instrução é o promotor social mais eficaz no presente e tornar-se-à ainda mais importante no futuro próximo.
- Passar a ter uma participação muitíssimo mais forte nas organizações sindicais, cívicas e culturais (Sindicatos dos trabalhalhadores do comércio, bancários, técnicos de vendas... Rotários, Deco...Clubes de campismo e caravanismo...).
E
apoiar a nova classe operária, suas organizações e lutas, porque
ela está ao seu nível de rendimentos e de conhecimentos e tem
trabalho limpo. Além disso , sem desenvolvimento industrial e com a
consequente intervenção dos trabalhadores do sector parece que o
País não criará uma dinâmica de crescimento que permita a
promoção da classe média baixa. E os elementos da classe média
baixa cujos pais eram operários têm aqui uma excelente ocasião
para se reconciliarem com as suas origens.
- Abraçar, e por esta ordem de prioridades, os sectores seguintes do Estado social: Segurança social, Saúde e Educação. A promoção e requalificação do Estado social implica, porém, não só a reivindicação mas também a prática da virtude fiscal da parte dos cidadãos e a prática de rigor e eficiência da parte dos trabalhadores do Estado que prestam esses serviços.
- Adoptar um estilo de vida de frugalidade ecológica, isto é, de não consumismo desabrido como é o que actualmente campeia entre os membros da classe média em geral. Só que os membros da classe média alta dispõem de recursos que lhes permitem consumir e desperdiçar desporadamente sem prejudicarem outros objectivos exenciais de vida. Exemplos: preferir o transporte colectivo (ferroviário, rodoviário) ao tranporte individual; preferir uma alimentação saudável a uma alimentação gourmet; preferir o arrendamento de casa a casa própria; preferir férias em Portugal a férias no estrangeiro...
Tudo
isto fará muito mais sentido se o nosso país, orientado por uma
classe dirigente mais virada para o bem comum de todos os cidadãos,
assumir, como projectos inadiáveis para a próxima década, a
duplicação do PIB, a duplicação do número actual da população
activa com formação superior, a gestão eficiente da água e da
floresta e o rejuvenescimento demográfico.
Artur
Lemos Azevedo
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