sexta-feira, 23 de março de 2018


CAMINHOS DE PROGRESSO PARA A CLASSE MÉDIA BAIXA

A classe média, em Portugal, corresponde a metade da população. A outra metade é constituída por pobres dependentes dos apoios da comunidade (20%) e por trabalhadores pobres, a maior parte deles do sector industrial e agrícola (30%).
Na classe média há que distinguir, porém, dois segmentos, a classe média alta e a classe média baixa. Aquela aufere rendimentos acima dos 50.000 € anuais e exerce grande influência sobre a governação do País através de redes associativas e familiares e da sua forte representação no aparelho de Estado. É a classe dirigente e representará 15% da população. Os capitalistas são pouquíssimos mas com grande poder económico e encontram-se num patamar inacessível à classe média alta.Daí que a grande preocupação desta classe seja distanciar-se da classe média baixa.
A classe média baixa situa-se quase exclusivamente nos serviços ( trabalhadores de colarinhos brancos) e procura demarcar-se dos trabalhadores da indústria e da agricultura mais pelo estilo de vida ( horário de trabalho de 35 horas, viatura familiar, férias na praia, consumismo...) do que pelos rendimentos. Em muitos casos ganham tanto ou menos que os trabalhadores da indústria mas consideram-se elementos da classe média e, em geral, não se mostram muito compreensivos com as actividades e as lutas dos proletários da indústria e da agricultura.
A crise e o programa de austeridade subsequente com a consequente redução de rendimentos vieram pôr a descoberto a bolha da dívida das famílias da classe média baixa. A dívida das famílias atinge actualmente 100% do PIB. Foi a dívida que lhes permitiu viver durante alguns anos a ilusão de pertencerem à classe média real, ilusão certamente legítima e compreensível mas nem por isso menos fictícia.
Uma outra característica da classe média baixa nacional tem a ver com a sua débil proactividade e sentido do colectivo. A maior parte dos elementos que dela fazem parte entregam-se à inveja, à lamúria, à subserviência aos pequenos poderes ou acomodam-se tranquilamente ao poucochinho mas segurinho. Os sectores profissionais mais dinâmicos, que os há, procuram juntar-se à classe média alta.
A situação actual da classe média baixa poderá melhorar se:
  • Investir mais na formação geral e profissional. A educação/instrução é o promotor social mais eficaz no presente e tornar-se-à ainda mais importante no futuro próximo.
  • Passar a ter uma participação muitíssimo mais forte nas organizações sindicais, cívicas e culturais (Sindicatos dos trabalhalhadores do comércio, bancários, técnicos de vendas... Rotários, Deco...Clubes de campismo e caravanismo...).
E apoiar a nova classe operária, suas organizações e lutas, porque ela está ao seu nível de rendimentos e de conhecimentos e tem trabalho limpo. Além disso , sem desenvolvimento industrial e com a consequente intervenção dos trabalhadores do sector parece que o País não criará uma dinâmica de crescimento que permita a promoção da classe média baixa. E os elementos da classe média baixa cujos pais eram operários têm aqui uma excelente ocasião para se reconciliarem com as suas origens.
  • Abraçar, e por esta ordem de prioridades, os sectores seguintes do Estado social: Segurança social, Saúde e Educação. A promoção e requalificação do Estado social implica, porém, não só a reivindicação mas também a prática da virtude fiscal da parte dos cidadãos e a prática de rigor e eficiência da parte dos trabalhadores do Estado que prestam esses serviços.
  • Adoptar um estilo de vida de frugalidade ecológica, isto é, de não consumismo desabrido como é o que actualmente campeia entre os membros da classe média em geral. Só que os membros da classe média alta dispõem de recursos que lhes permitem consumir e desperdiçar desporadamente sem prejudicarem outros objectivos exenciais de vida. Exemplos: preferir o transporte colectivo (ferroviário, rodoviário) ao tranporte individual; preferir uma alimentação saudável a uma alimentação gourmet; preferir o arrendamento de casa a casa própria; preferir férias em Portugal a férias no estrangeiro...
Tudo isto fará muito mais sentido se o nosso país, orientado por uma classe dirigente mais virada para o bem comum de todos os cidadãos, assumir, como projectos inadiáveis para a próxima década, a duplicação do PIB, a duplicação do número actual da população activa com formação superior, a gestão eficiente da água e da floresta e o rejuvenescimento demográfico.


Artur Lemos Azevedo
























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