quinta-feira, 1 de março de 2018

Será por aí o caminho? Carta ao meu pároco (1)

Já me tinha apercebido do ambiente marcadamente ritualista das missas na paróquia:

  São velas acesas aqui e ali e num cortejo inicial;
 são paramentos antigos e rendas à moda antiga;
 são toques de campainha a anunciar o início da missa e consagração;
 são inclinações e genuflexões;
Nalguns lados já se fala de missa em latim, de costas para a assembleia, de promessa de cobertura de imagens na quaresma;
Comunhão na língua e de joelhos;
Lenço na cabeça das senhoras, etc. etc. etc.

É certo que tudo isto perturba muita gente, mas… será mesmo de se ficar perturbado? Se nos lembrarmos bem, este caminho já foi percorrido há não muito tempo.

Só que então foi percorrido numa caminhada em frente e hoje é numa marcha atrás. Toda esta tentativa de restauro de ritos que o tempo foi instalando, influenciados em grande parte pela imitação das cerimónias nas cortes de reis e gente importante e imitados pelos sacerdotes de todos os cultos, trouxe-me à ideia a imagem das touradas à antiga portuguesa; aquilo é um espetáculo em que trajes, música, gestos, figurantes… tudo, tem a ver com o que era a tourada no sec. XVIII.

A PALAVRA não tem aí lugar; quem lá vai é para ASSISTIR a um espetáculo em que não se é participante. Ali diz-se olé; na missa diz-se ámen. Mais participação não há. Quando acabou, vai-se dali para fora e não se pede que a tourada tenha influência na vida, tenha impacto com a nossa maneira de estar no mundo. As palavras “chave” na /da liturgia em tempos que vivemos, eram cerimónias, cerimonial, cerimoniário, mestre de cerimónias; passámos a ver a liturgia como celebração. Na liturgia cerimonial, o que é mais relevante é o espectáculo do conjunto de ritos, gestos, vestes, alfaias litúrgicas, coisas que, em boa verdade, pouco ou nada têm a ver com a vida. Na liturgia celebração é a Palavra e o rito Eucarístico que, se a celebração não for adulterada pela rotina, tudo a ver com a vida – aspirações, preocupações, sonhos, procura, alegria, sofrimento… da gente e do nosso mundo.

  António Correia

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