UMA IGREJA
(TEMPLO) INSPIRADORA DE UM CATOLICISMO RENOVADO – A IGREJA DA
SENHORA DOS NAVEGANTES DO PARQUE DAS NAÇÕES (LISBOA)
Tenho muita
sorte porque, a uma distância média de 400 metros da minha
residência, encontro três igrejas paroquiais e uma igreja de um
Seminário que documentam algumas das fases da renovação da arte
sacra na diocese de Lisboa iniciada no fim dos anos cincoenta do
século passado. A mais recente (2014), obra do arquitecto José
Maria Dias Coelho, é aquela de que mais gosto quer do ponto de vista
estético, quer do ponto de vista funcional quer do ponto de vista da
sua inspiração católica. Trata-se da Igreja paroquial da Senhora
dos Navegantes do Parque das Nações de Lisboa.
Está situada
entre, de um lado, habitações (apartamentos e moradias da classe
média alta ) e, do outro, os jardins da beira Tejo. Acompanham-na, a
curta distância, o Centro pastoral e o Auditório paroquial.
Olhando-a de
frente e a uma distância de 50 metros, descobre-se uma cruz cavada
na fachada e, em sobreposição e a uma altura de 40 metros, a torre
sineira constituída por dois pilares/mastros de uma embarcação.
Quando se entra
pela porta principal deparamos com um espaço amplo ,em círculo e
calota ao fundo, destinado à celebração da missa pela assembleia
dos fieis ( 700). Os pilares deste salão, dispostos em arco, evocam
o cavername de um barco de madeira e o revestimento das paredes das
galerias em tiras de madeira sugerem as ondas do mar.
Em linha recta
em direcção ao fundo do salão encontra-se, junto ao paravento da
entrada, a pia baptismal cavada num grande bloco com aparência de
rocha e depois, a uma distância de cerca de 10 metros, surge o
altar-mor, ampla mesa rectangular de mármore. São os dois
equipamentos necessários e suficientes para a celebração dos dois
sacramentos fundamentais da fé cristã. Em plano levemente superior
e encostado à parede de fundo fica o lugar reservado ao clero que
preside e anima a celebração.
Na parede de
fundo encontramos três paineis, em baixo relevo, um ao centro, de
maior dimensão e dois colocados à direita e à esquerda dele. O
painel da esquerda representa a ceia e o lava-pés e é confeccionado
com azulejos lisos de cor branca e parda de modo a esboçar a imagem
pretendida em “sfumato”. O painel da direita, feito com a mesma
técnica, representa as bodas de Caná . O do centro, feito em reboco
e em baixo relevo, representa a transfiguração de Cristo.
Sublinhe-se que
os temas escolhidos constituem um síntese perfeita da mensagem
cristã: Cristo filho de Deus e filho do homem, amor e serviço. “O
sfumato” não distrai os fieis que participam nas celebrações
como seria o caso se os paineis fossem realistas mas recorda-lhes
que a fé vê o invisível no visível.
A capela do
Santíssimo Sacramento está situada atrás da parede de fundo, com
discreção e funcionalidade perfeitas.Quando termina a celebração
eucarística recolhem-se as hóstias que restaram no sacrário ,
inserido na parede e dotado de duas frentes, uma que dá para a
Igreja e a outra que dá para a capela do Santíssimo. Esta capela
está sinalizada por um vitral abstracto de cor azul colocado atrás
do sacrário.Ainda a respeito de discreção note-se que a imagem da
Senhora dos Navegantes está colocada na capela do Santíssimo e que
a cruz que preside às celebrações do povo de Deus é trazida e
recolhida processionalmente para cada celebração, em contraste com
a profusão de cruzes que enche muitas das nossas igrejas do periodo
da contra-reforma e não só.
Em termos de
funcionalidade há que acrescentar, ainda, a existência, debaixo das
galerias, de dois espaços com isolamento acústico e parede de
vidro, destinados aos pais com crianças de tenra idade.
Em síntese,
aprecio a leveza, a luminosidade e a originalidade desta
Igreja/templo, a sua funcionalidade, e a capacidade demonstrada para
enquadrar e estimular a renovação evangélica da Igreja Católica
que, como diziam os cristãos de há muitos séculos ,está em
renovação permanente, “Ecclesia semper reformanda”.
Artur Lemos
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