terça-feira, 20 de março de 2018


UMA IGREJA (TEMPLO) INSPIRADORA DE UM CATOLICISMO RENOVADO – A IGREJA DA SENHORA DOS NAVEGANTES DO PARQUE DAS NAÇÕES (LISBOA)

Tenho muita sorte porque, a uma distância média de 400 metros da minha residência, encontro três igrejas paroquiais e uma igreja de um Seminário que documentam algumas das fases da renovação da arte sacra na diocese de Lisboa iniciada no fim dos anos cincoenta do século passado. A mais recente (2014), obra do arquitecto José Maria Dias Coelho, é aquela de que mais gosto quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista funcional quer do ponto de vista da sua inspiração católica. Trata-se da Igreja paroquial da Senhora dos Navegantes do Parque das Nações de Lisboa.

Está situada entre, de um lado, habitações (apartamentos e moradias da classe média alta ) e, do outro, os jardins da beira Tejo. Acompanham-na, a curta distância, o Centro pastoral e o Auditório paroquial.

Olhando-a de frente e a uma distância de 50 metros, descobre-se uma cruz cavada na fachada e, em sobreposição e a uma altura de 40 metros, a torre sineira constituída por dois pilares/mastros de uma embarcação.

Quando se entra pela porta principal deparamos com um espaço amplo ,em círculo e calota ao fundo, destinado à celebração da missa pela assembleia dos fieis ( 700). Os pilares deste salão, dispostos em arco, evocam o cavername de um barco de madeira e o revestimento das paredes das galerias em tiras de madeira sugerem as ondas do mar.

Em linha recta em direcção ao fundo do salão encontra-se, junto ao paravento da entrada, a pia baptismal cavada num grande bloco com aparência de rocha e depois, a uma distância de cerca de 10 metros, surge o altar-mor, ampla mesa rectangular de mármore. São os dois equipamentos necessários e suficientes para a celebração dos dois sacramentos fundamentais da fé cristã. Em plano levemente superior e encostado à parede de fundo fica o lugar reservado ao clero que preside e anima a celebração.

Na parede de fundo encontramos três paineis, em baixo relevo, um ao centro, de maior dimensão e dois colocados à direita e à esquerda dele. O painel da esquerda representa a ceia e o lava-pés e é confeccionado com azulejos lisos de cor branca e parda de modo a esboçar a imagem pretendida em “sfumato”. O painel da direita, feito com a mesma técnica, representa as bodas de Caná . O do centro, feito em reboco e em baixo relevo, representa a transfiguração de Cristo.

Sublinhe-se que os temas escolhidos constituem um síntese perfeita da mensagem cristã: Cristo filho de Deus e filho do homem, amor e serviço. “O sfumato” não distrai os fieis que participam nas celebrações como seria o caso se os paineis fossem realistas mas recorda-lhes que a fé vê o invisível no visível.

A capela do Santíssimo Sacramento está situada atrás da parede de fundo, com discreção e funcionalidade perfeitas.Quando termina a celebração eucarística recolhem-se as hóstias que restaram no sacrário , inserido na parede e dotado de duas frentes, uma que dá para a Igreja e a outra que dá para a capela do Santíssimo. Esta capela está sinalizada por um vitral abstracto de cor azul colocado atrás do sacrário.Ainda a respeito de discreção note-se que a imagem da Senhora dos Navegantes está colocada na capela do Santíssimo e que a cruz que preside às celebrações do povo de Deus é trazida e recolhida processionalmente para cada celebração, em contraste com a profusão de cruzes que enche muitas das nossas igrejas do periodo da contra-reforma e não só.

Em termos de funcionalidade há que acrescentar, ainda, a existência, debaixo das galerias, de dois espaços com isolamento acústico e parede de vidro, destinados aos pais com crianças de tenra idade.

Em síntese, aprecio a leveza, a luminosidade e a originalidade desta Igreja/templo, a sua funcionalidade, e a capacidade demonstrada para enquadrar e estimular a renovação evangélica da Igreja Católica que, como diziam os cristãos de há muitos séculos ,está em renovação permanente, “Ecclesia semper reformanda”.


Artur Lemos








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