QUE
RAZÕES TÊM OS CATÓLICOS PRATICANTES PORTUGUESES E SEUS PASTORES
PARA NÃO ADERIREM À REFORMA EVANGÉLICA DO PAPA FRANCISCO
Duas
razões, uma ligada ao modo como o Papa Francisco exerce a sua missão
de Papa e a outra relativa à reforma evangélica que propõe.
Os
países latinos do Sul da Europa protagonizaram o combate contra a
reforma protestante e, nessa luta, moldaram os traços essenciais da
sua concepção e prática do cristianismo, a saber e em termos muito
gerais.
Ideia
de um Deus justiceiro e poderoso, secundarizando a sua misericórdia,
primeiro atributo do “Deus de Jesus Cristo” ; Primazia conferida
ao culto (Sacramentos, oração, devoção aos santos...), em
detrimento da fé/amor aos outros; A salvação consiste
primariamente em conseguir um lugar no céu e secundariamente em
viver o mais humanamente possível na terra; Procura de luz e alento
na mãe de Jesus subestimando o papel mediador do seu filho e Filho
de Deus; A comunidade dos crentes em Cristo, A Igreja, é tida como
rebanho iluminado e disciplinado pelos representantes auto-assumidos
de Cristo (clero) e não como serviço humilde do povo de Deus;
Devoção ao Papa, juiz último da verdade e das consciências.
O
Papa Francisco tem um outro entendimento do seu papel na Igreja. Na
prática encara-o como serviço do povo de Deus de acordo com o lema
que vem desde há muitos séculos: Servo dos servos de Deus. E isso
confunde os católicos praticantes portugueses e os seus pastores e
leva a ignorá-lo respeitosamente. Noutros países, porém, mesmo
entre o clero católico, há ódio e fúria declarados.
Ao
longo dos cinco séculos que já leva o modelo do cristianismo
português esculpido contra a reforma protestante não surgiu, em
Portugal, qualquer movimento reformador de cariz evangélico. Quanto
aos que vieram de fora, foram facilmente naturalizados, isto é,
desvirtuados e aproveitados para reforçar o modelo tridentino ou
contra-reformista.
O
que se passou com o impulso reformista evangélico do Vaticano II
obedeceu à prática tradicional de assimilação: participação
passiva dos bispos nos trabalhos do Concílio e aplicação
superficial nas dioceses do país assente no pressuposto declarado
que a Igreja portuguesa há muito punha em prática as ideias deste
Concílio. O longo pontificado conservador de João Paulo II acabou
por lhes dar razão.
Um
parêntesis importante com uma advertência a não esquecer. O
combate, que opôs católicos e protestantes e durou mais de dois
séculos, marcou negativamente e profundamente tanto o catolicismo
como o protestantismo tornando-os a ambos menos evangélicos.
Exemplos
de alguns dos desvios protestantes: intolerância e lutas de morte
entre versões do cristianismo protestante, desvarios doutrinais,
exclusão do culto mariano e dos santos...
Hoje,
em Portugal, o núcleo duro da Igreja Católica responde ao apelo do
Papa Francisco fazendo mais do mesmo que foi feito no passado,
admito que com alguma preocupação . Efectivamente a frequência das
comunidades cristãs, tanto em meio rural como em meio urbano, tem
diminuído drasticamente e vai-se restringindo aos idosos que
apreciam este modelo de cristianismo porque lhes restitui os bons
velhos tempos.Os esforços por transmitir a fé aos mais novos inova
nos processos mas não altera os conteúdos, com que visceralmente os
cristãos se identificam e que , parcialmente, são produtos das
vicissitudes da história. A fé de um cristão de há mil anos é
essencialmente a mesma mas a sua expressão, sempre necessária para
que exista fé, vai mudando para continuar a ser a mesma.
Como
católico praticante que sou estou convicto que a reforma evangélica
adequada ao nosso tempo vai fazer-se. E que, tal como o Evangelho
aconselha, começa por pequenos grupos de leigos, padres e bispos ,
vivendo do modo mais evangélico possível e ajudando, com muita
humildade, outros a descobrirem ou redescobrirem o projecto de
Jesus Cristo de humanização e divinização da terra. O céu será
dado a todos, bons e menos bons, pelo Deus misericordioso em que
acreditamos. Deus será tudo em todos, como diz S. Paulo.
Artur
Lemos
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