segunda-feira, 19 de março de 2018


QUE RAZÕES TÊM OS CATÓLICOS PRATICANTES PORTUGUESES E SEUS PASTORES PARA NÃO ADERIREM À REFORMA EVANGÉLICA DO PAPA FRANCISCO

Duas razões, uma ligada ao modo como o Papa Francisco exerce a sua missão de Papa e a outra relativa à reforma evangélica que propõe.

Os países latinos do Sul da Europa protagonizaram o combate contra a reforma protestante e, nessa luta, moldaram os traços essenciais da sua concepção e prática do cristianismo, a saber e em termos muito gerais.

Ideia de um Deus justiceiro e poderoso, secundarizando a sua misericórdia, primeiro atributo do “Deus de Jesus Cristo” ; Primazia conferida ao culto (Sacramentos, oração, devoção aos santos...), em detrimento da fé/amor aos outros; A salvação consiste primariamente em conseguir um lugar no céu e secundariamente em viver o mais humanamente possível na terra; Procura de luz e alento na mãe de Jesus subestimando o papel mediador do seu filho e Filho de Deus; A comunidade dos crentes em Cristo, A Igreja, é tida como rebanho iluminado e disciplinado pelos representantes auto-assumidos de Cristo (clero) e não como serviço humilde do povo de Deus; Devoção ao Papa, juiz último da verdade e das consciências.

O Papa Francisco tem um outro entendimento do seu papel na Igreja. Na prática encara-o como serviço do povo de Deus de acordo com o lema que vem desde há muitos séculos: Servo dos servos de Deus. E isso confunde os católicos praticantes portugueses e os seus pastores e leva a ignorá-lo respeitosamente. Noutros países, porém, mesmo entre o clero católico, há ódio e fúria declarados.

Ao longo dos cinco séculos que já leva o modelo do cristianismo português esculpido contra a reforma protestante não surgiu, em Portugal, qualquer movimento reformador de cariz evangélico. Quanto aos que vieram de fora, foram facilmente naturalizados, isto é, desvirtuados e aproveitados para reforçar o modelo tridentino ou contra-reformista.

O que se passou com o impulso reformista evangélico do Vaticano II obedeceu à prática tradicional de assimilação: participação passiva dos bispos nos trabalhos do Concílio e aplicação superficial nas dioceses do país assente no pressuposto declarado que a Igreja portuguesa há muito punha em prática as ideias deste Concílio. O longo pontificado conservador de João Paulo II acabou por lhes dar razão.

Um parêntesis importante com uma advertência a não esquecer. O combate, que opôs católicos e protestantes e durou mais de dois séculos, marcou negativamente e profundamente tanto o catolicismo como o protestantismo tornando-os a ambos menos evangélicos.

Exemplos de alguns dos desvios protestantes: intolerância e lutas de morte entre versões do cristianismo protestante, desvarios doutrinais, exclusão do culto mariano e dos santos...

Hoje, em Portugal, o núcleo duro da Igreja Católica responde ao apelo do Papa Francisco fazendo mais do mesmo que foi feito no passado, admito que com alguma preocupação . Efectivamente a frequência das comunidades cristãs, tanto em meio rural como em meio urbano, tem diminuído drasticamente e vai-se restringindo aos idosos que apreciam este modelo de cristianismo porque lhes restitui os bons velhos tempos.Os esforços por transmitir a fé aos mais novos inova nos processos mas não altera os conteúdos, com que visceralmente os cristãos se identificam e que , parcialmente, são produtos das vicissitudes da história. A fé de um cristão de há mil anos é essencialmente a mesma mas a sua expressão, sempre necessária para que exista fé, vai mudando para continuar a ser a mesma.

Como católico praticante que sou estou convicto que a reforma evangélica adequada ao nosso tempo vai fazer-se. E que, tal como o Evangelho aconselha, começa por pequenos grupos de leigos, padres e bispos , vivendo do modo mais evangélico possível e ajudando, com muita humildade, outros a descobrirem ou redescobrirem o projecto de Jesus Cristo de humanização e divinização da terra. O céu será dado a todos, bons e menos bons, pelo Deus misericordioso em que acreditamos. Deus será tudo em todos, como diz S. Paulo.



Artur Lemos

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