quinta-feira, 15 de março de 2018


  Será por aí o Caminho?    Carta ao meu pároco (2)

                
            A propósito de cerimónias e de celebração lembro-me tantas vezes duma situação que se passou comigo e que não resisto a contá-la aqui.         Nos finais dos anos 60, penso que na semana da Páscoa de 68, uns amigos meus da paróquia em que eu estava, cristãos muito empenhados na vida da comunidade, membros ativos da Ação Católica, determinaram ir a Lourdes com a mãe, que fazia muito gosto nisso. Alinhei, com o meu carro; éramos oito.
            Fomos por Barcelona, visitámos Monserrate, fizemos caminho por Andorra e chegámos a Lourdes onde fomos peregrinos. Regressámos por Madrid. Era domingo. Onde ir à missa? Convidei os meus amigos a visitarmos um teólogo holandês, o padre Barth Reker meu amigo também, que nessa altura vivia em Madrid, impedido de regressar a Portugal. Na sua casa, num bairro modesto, sentados à roda duma mesinha da sala, conversámos sobre a nossa peregrinação, sobre o exílio do Barth, sobre coisas do nosso país e da nossa igreja, lemos os textos da missa desse dia, o Barth orientou a meditação sobre eles e celebrámos a eucaristia. Não houve paramentos, velas, cerimónias.
            Quando, já em casa e passados uns tempos, conversávamos sobre a nossa ida a Lourdes, o Ti Emídio, o mais velho dos irmãos da família, homem que falava muito pouco e por isso não era capaz de dizer não sempre que se lhe pedia ajuda e apoio, que apesar do seu silêncio tinha um carisma extraordinário para construir comunidade, o Ti Emídio disse: ”Gostei muito de tudo, do que visitámos e da nossa ida a Lourdes, mas o que mais fundo me tocou foi a missa em casa do Reker”.
            Não foram precisas cerimónias e cenários de culto para o Ti Emidio e nós todos percebermos que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”.
            Não afirmo que paramentos e alguns ritos não têm lugar na celebração. Têm, mas é assunto para outra altura-
                                                                                       António Correia

 

Sem comentários:

Enviar um comentário