Será por aí o Caminho? Carta ao meu pároco (2)
A propósito de cerimónias e de celebração lembro-me
tantas vezes duma situação que se passou comigo e que não resisto a contá-la
aqui. Nos finais dos anos 60,
penso que na semana da Páscoa de 68, uns amigos meus da paróquia em que eu
estava, cristãos muito empenhados na vida da comunidade, membros ativos da Ação
Católica, determinaram ir a Lourdes com a mãe, que fazia muito gosto nisso. Alinhei,
com o meu carro; éramos oito.
Fomos por
Barcelona, visitámos Monserrate, fizemos caminho por Andorra e chegámos a
Lourdes onde fomos peregrinos. Regressámos por Madrid. Era domingo. Onde ir à
missa? Convidei os meus amigos a visitarmos um teólogo holandês, o padre Barth
Reker meu amigo também, que nessa altura vivia em Madrid, impedido de regressar
a Portugal. Na sua casa, num bairro modesto, sentados à roda duma mesinha da
sala, conversámos sobre a nossa peregrinação, sobre o exílio do Barth, sobre
coisas do nosso país e da nossa igreja, lemos os textos da missa desse dia, o
Barth orientou a meditação sobre eles e celebrámos a eucaristia. Não houve
paramentos, velas, cerimónias.
Quando, já
em casa e passados uns tempos, conversávamos sobre a nossa ida a Lourdes, o Ti
Emídio, o mais velho dos irmãos da família, homem que falava muito pouco e por
isso não era capaz de dizer não
sempre que se lhe pedia ajuda e apoio, que apesar do seu silêncio tinha um
carisma extraordinário para construir comunidade, o Ti Emídio disse: ”Gostei muito de tudo, do que visitámos e da
nossa ida a Lourdes, mas o que mais fundo me tocou foi a missa em casa do
Reker”.
Não foram precisas cerimónias e cenários de culto para o
Ti Emidio e nós todos percebermos que “onde
dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”.
Não afirmo
que paramentos e alguns ritos não têm lugar na celebração. Têm, mas é assunto
para outra altura-
António Correia
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