Duas notícias na mesma
semana de Novembro de 2017 vieram recordar-me a luta contra a
economia paralela que é missão permanente da cidadania activa.
Uma delas referia que o
preço das casas em Lisboa e no Porto fica registado nos respectivos
contratos de venda 8% abaixo do preço pelo qual são
transaccionadas, com evidente lucro para quem vende e prejuízo para
o Estado. De resto esta prática é relativamente comum entre
vendedores e compradores individuais, no sector da habitação e
noutros sectores.A outra notícia era sobre as somas avultadíssimas
de dinheiro depositadas no paraíso fiscal das Ilhas Caimão, pagando
impostos menores que nos países de origem e em que está envolvida,
ao que parece, a própria Rainha de Inglaterra e cerca de uma centena
de cidadãos portugueses.
Lembro agora aos cidadãos
activos alguns dados e armas que nos podem ajudar a tornar esta luta
mais razoável e mais eficaz.
Em 2007, antes da crise, por
conseguinte, e entre os países (15) da União Europeia, Portugal
ocupava o 13º lugar com 22% de economia paralela estimada e
referenciada ao Produto Interno Bruto (PIB). Com economia paralela
mais elevada só a Grécia e a Itália (26%).
Em geral as famílias
recorrem mais à economia paralela do que as empresas e os ricos mais
do que os pobres.
Há dois tipos de economia
paralela, a economia subterrânea e a economia informal. Esta, em
geral, é praticada às claras, e é utilizada por indivíduos com
graves problemas de subsistência e, nalguns casos, por arrivistas
sociais (biscates, vendas de rua, feirotos ...) . Aquela, a economia
subterrânea, é praticada por empresas e indivíduos inseridos na
economia formal e que aproveitam os paraísos fiscais, os escaninhos
das leis (planeamento fiscal …), a moleza das autoridades fiscais
e a tolerância da sociedade, para fugirem aos impostos. Qualquer
delas ofende os princípios dos Estados de direito, como é o nosso,
mas a economia informal é muito menos grave porque é dever de
qualquer Estado proporcionar condições mínimas de subsistência
dentro do quadro das suas próprias leis, o que relativamente a
alguns cidadãos não se verifica. Por isso a sociedade em geral e o
Estado têm de ser muito mais tolerantes para esse tipo de economia,
aceitando que, em tempo de vacas magras, ela tende a crescer (desemprego, endividamento...) e que, quando a economia volta a
crescer, é o momento mais adequado para a conter.
Não é possível extirpar
por completo a economia paralela, subterrânea ou informal mas é
possível reduzi-la para níveis mais aceitáveis como os dos Estados
Unidos da América ou da Áustria que têm os níveis mais baixos de
economia paralela conhecidos (9%).
Só é possível conter ou
reduzir a economia paralela através da cooperação estreita entre
os governos e os cidadãos, unidos pelo mesmo objectivo de encontrar
recursos financeiros através dos impostos , que promovam melhor
saúde, melhor educação, melhores transportes, melhor cultura...
Admitindo que hoje em dia a
economia paralela estimada, em Portugal, representa 22% do PIB ,
isto é, 35 mil milhões de euro, se fizéssemos descer a economia
paralela um ponto percentual, seriam, pelo menos, mais duzentos
milhões de euro que entrariam anualmente nos cofres do Estado para
utilizar nos bens comuns a todos os cidadãos. E se conseguíssemos
baixar 1% por ano durante cinco anos consecutivos , no 5º ano, o
Estado arrecadaria mil milhões de euro.
Que pode e deve fazer um
cidadão activo neste domínio do combate à economia paralela e à
fraude fiscal?
Utilizar, o mais possível
, o Multibanco para pagamentos e outros movimentos de modo a tornar
possível seguir o rasto do dinheiro que escapou ao fisco. Movimentos
em dinheiro vivo (moedas e notas) não deixam rasto.
Exigir, nas situações
previstas pela lei fiscal, a inserção do número fiscal ou, no
mínimo, que a transação efectuada seja registada no sistema legal
de registo. A este propósito convém recordar que actualmente a única
forma de assegurar deduções à colecta em sede de IRS é através
da identificação das facturas com número fiscal.
Por vezes somos confrontados
com situações e opiniões que nos deixam perplexos e sem palavras.
Diz-nos quem está pronto a
vender-nos um serviço: “ Com IVA são 250 € e sem IVA são 193
€. O que prefere?” A nossa resposta de cidadãos activos só pode
ser “ com IVA, naturalmente”. Mas quem vende está
pressionar-nos, de modo subtil e enganador, em sentido contrário.
Sabemos que podemos poupar 57€ e que quem vende tem contabilidade
organizada e que vai lucrar com o não pagamento de IVA, diminuindo a
sua massa colectável . O negócio parece-nos excelente porque ganham
os dois parceiros. Esquecemos, porém, que quem perde é o bem comum
e em duas frentes.
Cruzamo-nos com pessoas que
justificam a fuga aos impostos com razões diversas.
A quem diz fugir aos
impostos porque são excessivos, muitas vezes comparando-os com as
práticas de outros países, pode responder-se: “É provável mas
uma forma ao nosso alcance para os fazermos baixar é aumentar o
número dos que os pagam”.
A quem alegar que os
impostos são mal utilizados pelos governos para justificar a fuga ao
fisco poder-se-à talvez contrapor o seguinte: “Concordo que os
governos nem sempre os utilizam em benefício da comunidade.
Entretanto, em democracia, a solução é mudar os governos para que
façam melhor.”
Artur Lemos
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