segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

VALORIZAR O TRABALHO E OS TRABALHADORES

Passámos em Portugal, nos últimos anos, por uma crise económico-financeira que piorou significativamente as condições de trabalho dos assalariados, reduzindo o emprego e as remunerações e aumentando a precariedade e o autoritarismo da gestão empresarial. Convém, entretanto, sublinhar que o trabalho mesmo, está a passar por uma crise profundíssima provocada pela robotização, pela informatização e pela globalização. A manter-se esta tendência haverá cada vez menos emprego para a população mundial que, entretanto, continua a crescer exponencialmente e entre os empregos disponíveis acentuar-se-á drasticamente o fosso entre os empregos muito qualificados e os muito pouco qualificados.
Em Portugal, em geral e sobretudo nas empresas privadas, o trabalho é pouco valorizado. É que as empresas portuguesas funcionam de acordo com o “modelo capitalista” de empresa. Nesse quadro, o patrão remunera os trabalhadores pelo mínimo aceitável pelo mercado de trabalho e procura maximizar o capital. Além disso, o patrão entende que o facto de ter adquirido os instrumentos de trabalho, instalações, terrenos, equipamentos..., lhe dá poder ilimitado sobre os trabalhadores, tornando a relação com eles relação de pura subordinação, às vezes mais suave e, outras vezes, mais crispada. Os governos, de acordo com a sua cor política e com os preceitos constitucionais, defendem mais ou menos os trabalhadores que constituem a parte mais débil da relação laboral. Os sindicatos, esses, defendem realmente os trabalhadores , embora privilegiando processos peculiares às suas diferentes tradições.
Há uma alternativa (há mais...) ao modelo capitalista que é o modelo da empresa cooperativa. Em síntese, o conjunto dos trabalhadores são proprietários da empresa cooperativa, auferem salários mais equilibrados, as relações de trabalho são de cooperação e não de subordinação e os excedentes (lucros) são distribuídos igualitariamente pelos coooperadores.
Portugal, infelizmente, tem utilizado muito pouco este modelo , embora, no passado recente, as cooperativas do vinho e do leite (cooperativas atípicas) tenham favorecido os vinhateiros e os produtores de leite e modernizado os processos de fabrico e de vendas.
Pelos menos metade da população activa portuguesa actual, porém, mesmo que quisesse, não estaria em condições de trabalhar em cooperativas. É que esses trabalhadores têm que receber necessariamente as suas remunerações no fim do mês para assegurarem a sobrevivência das suas famílias e as cooperativas não acumulam capital suficiente para aguentar quebras prolongadas de produção e de vendas e têm grande dificuldade em aceder ao crédito dos Bancos Capitalistas. Necessitam de Bancos cooperativos ou éticos e não os há no nosso país. Entre nós existe apenas algo de parecido e destinado prioritariamente ao sector agrícola que é o Sistema Integrado de Crédito Agrícola Mútuo. Este Sistema enquadra 82 caixas com 700 agências espalhadas pelo Continente e Ilhas. O sucesso desta rede de caixas (escapou à crise dos bancos capitalistas que arruinou o país) está em perigo face à investida do “ Banco CTT “, um banco capitalista recentemente lançado pelos CTT privatizados. Este novo Banco aproveita o prestígio que os CTT construíram nos últimos anos e a ignorância de que já não se trata de uma instituição pública, em princípio mais segura. Acresce ainda que os novos CTT privatizados continuam a centralizar a venda de Certificados do Tesouro (nacional) e agora estão a multiplicar “as lojas do cidadão”, depois de terem suprimido centenas de estações de correio Atenção cidadãos activos. Não podemos repetir os erros do passado recente: deixarmo-nos enganar pelos Bancos capitalistas e, depois, querermos que todos os cidadãos nos venham restituir o dinheiro que perdemos ou que nos extorquiram habilmente.
Não se pode perder uma rede bancária não capitalista que tem rentabilidade provada e que presta um serviço notável ao sector agrícola e às populações rurais e do interior.
Actualmente é muito difícil criar postos de trabalho permanentes e qualificados num qualquer país excepto naturalmente no sector público administrativo, e os criados , excepto os precários, são em número muito inferior aos que se perdem por obra da informatização , da robotização e da globalização.
Por isso os trabalhadores têm de virar-se para a emigração especializada e para o mercado global onde o que conta é a competência. Digo competência e não apenas certificado ou diploma, embora um certificado de uma instituição com prestígio global constitua uma mais valia. E competências são capacidades teórico-práticas capazes de produzir produtos e serviços de excelência. É, pois, necessário e urgente reforçar significativamente a formação profissional dos trabalhadores qualificados nas novas tecnologias da informação e nas novas/velhas tecnologias substantivas (metalomecânica, electrónica, automação, energias renováveis...)

Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com

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