quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


CIENTISTAS,INOVADORES E EMPREENDEDORES

O nosso país tem feito progressos notáveis no domínio da ciência ,estimulados pelo falecido e notabilíssimo professor/investigador e ministro, Mariano Gago. Os portugueses apreciam seguramente tais progressos quer na produção científica e tecnológica quer na divulgação da ciência e da tecnologia, duas dimensões essenciais ao desenvolvimento cultural e económico do país.

Num passado mais ou menos remoto as coisas passavam-se de modo diferente do modo como se passam hoje. Nesses outros tempos os cientistas pesquisavam por vocação, por iniciativa própria e à sua própria custa, trabalhavam isolados e não se preocupavam com a utilidade prática das suas descobertas. Actualmente a ciência é obra colectiva, procura também resolver problemas práticos e é encarada pelos Estados como parte das suas missões essenciais a par da defesa, saúde ou educação. A cadeia de produção da ciência tem agora, como consequência, mais dois elos, além do investigador, o inovador e o empreendedor/empresário. E os cientistas,

ao procurarem resolver problemas práticos, saem do círculo fechado da procura do saber pelo saber e entram no mundo do trabalho, da produção de coisas úteis ao bem estar das populações. Os governos dos Estados, pelo seu lado, organizam o trabalho científico e tecnológico em sistemas nacionais de modo a conseguirem melhores resultados.

Portugal tem, como outros países, o seu Sistema Científico e Tecnológico, constituído quase exclusivamente por instituções do sector público, coordenadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Entre as instituições do sector privado, as mais conhecidas são a Fundação Gulbenkian, a Fundação Champalimaud e a Fundação Manuel dos Santos. Trabalham no Sistema Científico e Tecnológico Nacional um pouco mais de 100.000 trabalhadores, assim distribuídos: 80.000 investigadores, 20.000 técnicos e 2.000 nos serviços de apoio.

Acontece que mais ou menos 65.000 são remunerados através de uma bolsa individual, de duração variável e de renovação sempre incerta e que entra na categoria jurídica dos subsídios. Os cientistas

são, pois, trabalhadores precários que recebem apenas quando trabalham, não têm direito a serem associados à gestão do seu próprio trabalho, não têm´direito a subsídio de desemprego, a marcar férias,a subsídio pleno de doença, a fazer greve...

Não há dúvida que é justo, rentável e urgente integrá-los no regime jurídico de contrato de trabalho nas suas várias modalidades, nomeadamente a de contrato a tempo parcial. É imprescindível,porém, ter em conta quer as características específicas deste tipo de trabalho quer as ligações estreitas que tem com o ensino superior e que exigem muitíssimo mais flexibilidade do que aquela que é permitida pelo contrato normal de trabalho, desenhado tendo como modelo o trabalho fabril. Ao integrá-los na Administração Pública importa também fazê-lo com a participação deles e com uma dupla perspectiva, a do interesse dos indivíduos e dos seus grupos profissionais e a do bem comum as quais, infelizmente , nem sempre coincidem. E nem sempre também o bem comum leva vantagem sobre os interesses dos grupos profissionais, o que é contrário ao bem-estar da sociedade e dos seus membros.

Quanto à inovação e aos inovadores desenvolvem-se quando investigadores e empresários/empreendedores se juntam e trabalham em colaboração uns com os outros na procura de novos produtos e novos processos. Uns e outros têm que traçar caminhos que os levem a esses encontros virtuosos.

O número e qualidade de empresários/ empreendedores é claramente insuficiente como o demonstra a debilidade da nossa economia desde o início da revolução industrial.

Actualmente, os portugueses preferem ser assalariados a ser empresários/empreendedores.Geralmente procuram um emprego que lhes ofereça boas condições de trabalho sobretudo remuneratórias.

A educação familiar e a educação escolar desmerecem a alternativa empresarial em favor do assalariamento porque este é seguramente muito menos arriscado do que aquela. Efectivamente 80% da população activa não tem nem competências específicas, nem poder relacional, nem condições materiais que lhes permita lançar uma empresa com sucesso nem,muitas vezes, um auto emprego . Por outro lado, o discurso anticapitalismo e anticapitalista junto com a mais recente crítica ao empreendedorismo e à empregabilidade têm contribuido para o desacreditar junto dos 20% que teriam condições objectivas de o efectivar com mais ou menos sucesso. E assim, o mais comum dentro desse grupo de privilegiados, é, ainda ( pasme-se), aspirar-se a um emprego de quadro na Administração Pública .

Que fazer, então , como cidadão activo?

. Valorizar a missão do empreendedor/ empresário e a forma da empresa-cooperativa.
. Enquanto assalariado pertencente ao grupo dos 20 ou 30% de privilegiados,

criar empresas. Permitam-me que cite o meu caso. Fui durante 40 anos assalariado no sector privado nacional e multinacional e, ao longo desse tempo, criei, com outros, um bar, uma editora de livros técnicos e uma cooperativa de solidariedade social ( lar de idosos).

. Do capital que for conseguindo acumular ao longo dos anos de vida, destinar metade a reforçar a segurança de familiares actuais e vindouros e a outra metade, investi-lo em projectos económicos, sociais ou culturais, de preferência lançados por jovens empreendedores.


Artur Lemos. arturlemosazevedo@gmail.com

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