sexta-feira, 22 de dezembro de 2017


NATAL

Dezembro é mês de rituais, como há dias alguém referia na TV; mês de muita barafunda feita de luzes, de músicas, de consumismo, de jantares de Natal, de encontros, de iniciativas de solidariedade, de gastronomia, de atenção às crianças e, tantas vezes tenho sido apanhado pela dúvida sobre o significado ou consistência de tudo isso.

Intimamente reportava-me apenas a elementos tradicionais duma sociedade com marcas de tradição cristã e rural (Missa do Galo, prendas do Menino no sapatinho, algumas guloseimas, presépio…

Persistem também em mim recordações do Natal de 1973: estava isolado numa cela em Caxias; povoaram o meu silêncio a família, os amigos - tantos, a comunidade de Palmela de que era pároco, e um mundo de gente que chamei para ali; como nessa altura era padre, achei que poderia celebrar a missa do galo, com a presença virtual de toda a gente que previamente tinha reunido dentro de mim. Tinha a Bíblia que li, guardei um pedaço do pão de meio quilo que davam todas as manhãs e que eu, pelas grades, repartia com os pardais, e um pouco do vinho tinto da garrafinha de Pedras Negras (passe a publicidade) que tinham dado para o jantar desse dia. Foi um Natal que me marcou.

Hoje sinto a brilhar em mim uma estrela que me reconcilia com todos os sinais de festa do Natal do nosso tempo e do nosso mundo. Não sei porquê, tem-me bailado na memória uma canção dos anos 60, do Padre Aimé Duval, que refiro, traduzida, com pedido de desculpas a quem sabe francês. Era assim:

Senhor, meu amigo, pegaste-me na mão

Irei contigo, sem medo, até ao fim do caminho

Irei contigo, com vento e com frio,

Irei, tu levas-me e eu levo-te comigo

No meu coração.

Por todo o lado há dança, prazer, sorriso,

E eu vou em frente procurando o teu rosto nisto tudo.

É isso: em toda a manifestação de festa, nos jantares de Natal, nos encontros de família, de amigos, nas iniciativas de solidariedade… há um denominador comum: o desejo de encontro com o outro ou com outros, a procura de humanidade. No fundo foi/é isso que levou/leva Deus a revelar-se profunda e discretamente humano em Jesus.

O Sol da festa dos romanos, que o cristianismo batizou, continua nas luzes e mais ainda nas fogueiras onde elas ainda persistem.

O Jesus dos cristãos, mais do que nas missas do galo, nos presépios e nas canções de Natal (que perpetuam gostosamente a poesia com que Francisco de Assis celebrou o nascimento de Jesus) está nessa busca mesmo que discreta de HUMANIDADE presente na coração das pessoas; e há muita gente que, lá no fundo, sente que é esta a vertente mais profunda dos rituais de Dezembro.

AH! Até faço as pazes com o Pai Natal! É que ele veio tirar do Menino Jesus essa má imagem de dar prendas ricas aos meninos ricos e prendas pobres aos meninos pobres

António Correia

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