NATAL
Dezembro
é mês de rituais, como há dias alguém referia na TV; mês de
muita barafunda feita de luzes, de músicas, de consumismo, de
jantares de Natal, de encontros, de iniciativas de solidariedade, de
gastronomia, de atenção às crianças e, tantas vezes tenho sido
apanhado pela dúvida sobre o significado ou consistência de tudo
isso.
Intimamente
reportava-me apenas a elementos tradicionais duma sociedade com
marcas de tradição cristã e rural (Missa do Galo, prendas do
Menino no sapatinho, algumas guloseimas, presépio…
Persistem
também em mim recordações do Natal de 1973: estava isolado numa
cela em Caxias; povoaram o meu silêncio a família, os amigos -
tantos, a comunidade de Palmela de que era pároco, e um mundo de
gente que chamei para ali; como nessa altura era padre, achei que
poderia celebrar a missa do galo, com a presença virtual de toda a
gente que previamente tinha reunido dentro de mim. Tinha a Bíblia
que li, guardei um pedaço do pão de meio quilo que davam todas as
manhãs e que eu, pelas grades, repartia com os pardais, e um pouco
do vinho tinto da garrafinha de Pedras Negras (passe a publicidade)
que tinham dado para o jantar desse dia. Foi um Natal que me marcou.
Hoje
sinto a brilhar em mim uma estrela que me reconcilia com todos os
sinais de festa do Natal do nosso tempo e do nosso mundo. Não sei
porquê, tem-me bailado na memória uma canção dos anos 60, do
Padre Aimé Duval, que refiro, traduzida, com pedido de desculpas a
quem sabe francês. Era assim:
Senhor,
meu amigo, pegaste-me na mão
Irei
contigo, sem medo, até ao fim do caminho
Irei
contigo, com vento e com frio,
Irei,
tu levas-me e eu levo-te comigo
No
meu coração.
Por
todo o lado há dança, prazer, sorriso,
E
eu vou em frente procurando o teu rosto nisto tudo.
É
isso: em toda a manifestação de festa, nos jantares de Natal, nos
encontros de família, de amigos, nas iniciativas de solidariedade…
há um denominador comum: o desejo de encontro com o outro ou com
outros, a procura de humanidade. No fundo foi/é isso que levou/leva
Deus a revelar-se profunda e discretamente humano em Jesus.
O
Sol da festa dos romanos, que o cristianismo batizou, continua nas
luzes e mais ainda nas fogueiras onde elas ainda persistem.
O Jesus dos cristãos, mais do
que nas missas do galo, nos presépios e nas canções de Natal (que
perpetuam gostosamente a poesia com que Francisco de Assis celebrou o
nascimento de Jesus) está nessa busca mesmo que discreta de
HUMANIDADE presente na coração das pessoas; e há muita gente que,
lá no fundo, sente que é esta a vertente mais profunda dos rituais
de Dezembro.
AH!
Até faço as pazes com o Pai Natal! É que ele veio tirar do Menino
Jesus essa má imagem de dar prendas ricas aos meninos ricos e
prendas pobres aos meninos pobres
António
Correia
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